ABE » Academia Brasil-Europa
de Ciência da Cultura e da Ciência

Organização de estudos teóricos de processos interculturais e de estudos culturais nas relações internacionais
Pres.: Prof.Dr.Antonio Alexandre Bispo
Orgão
A.B.E.

CULTURA E NATUREZA
CULTUROLOGIA DE ORIENTAÇÃO AMBIENTAL EM ÉTICA DE RESPEITO À VIDA

FUNDAMENTADA NA
ANÁLISE INTERDISCIPLINAR DE PROCESSOS CULTURAIS EM CONTEXTOS INTERNACIONAIS
COM ESPECIAL CONSIDERAÇÃO DAS RELAÇÕES ENTRE A AMÉRICA LATINA E A UNIÃO EUROPÉIA

Programa da

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Centro de Estudos Culturais Brasil-Europa
Sede européia: Villa Pedro II°, Dieringhauser Str. 66, 51645 Gummersbach
República Federal da Alemanha
Centro de Estudos Culturais Brasil-Europa: Estrada dos Carvalhos s/n, CP 30, 12980000 Joanópolis, São Paulo

 

O projeto "Cultura-Natureza" se insere no âmbito dos trabalhos da Academia Brasil-Europa de Ciência da Cultura e da Ciência (A.B.E.), da organização internacional de teóricos de processos interculturais e de estudos culturais nas relações internacionais, de antiga tradição, primeira do gênero e que mantém ps Centros de Estudos Culturais Brasil-Europa no Brasil e na Alemanha.

Foi anunciado por ocasião da inauguração do Centro de Estudos Brasil-Europa na Europa, em 1997, em sessão solene sob o patrocínio da Embaixada do Brasil. A sua abertura deu-se com uma conferência em homenagem a Albert Schweitzer, quando considerou-se o relacionamento desse pensador, médico e artista com o Brasil. Após uma fase introdutória de três anos, o projeto desenvolve-se de forma a vir a ser programa de cunho prioritário da A.B.E..


Escopo da A.B.E. e o programa Cultura-Natureza

O escopo principal da A.B.E. reside na análise de processos inter- e transculturais como base do desenvolvimento de uma ciência da cultura em contextos globais e em relações internacionais (culturologia) e no estudo dos condicionamentos sócio-culturais do trabalho científico (science of science) com especial consideração da ética na cooperação científica.

Esses estudos exigem a superação de fronteiras disciplinares e a consideração das relações internas entre as várias esferas da cultura e do saber. A A.B.E. tem, conseqüentemente, uma orientação fundamentalmente interdisciplinar. Procura superar limitações eurocêntricas nos estudos culturais e de pesquisa da ciência.

As relações entre Ciência, Cultura e Natureza são consideradas com particular atenção nos trabalhos. Procura-se eruir as condições científico-culturais e científico-sociais necessárias para o desenvolvimento de uma atitude do Homem mais orientada segundo um fundamental respeito à vida.

A A.B.E. procura, assim, seguir uma ética que inclui necessariamente a proteção ambiental e a do direito dos seres viventes em geral. As mutações da natureza e do mundo animal ­ por ex. questões de transplantação, migração, degradação e regeneração ­ devem ser consideradas nos seus vínculos com processos de ocupação do solo e de urbanização. Procura-se reintegrar, assim, sob contínua atualização de pontos de vista e de métodos, a história natural na pesquisa da cultura e no estudo das pré-condições sócio-culturais do trabalho científico e da ética na cooperação científica internacional.

O projeto "Cultura-Natureza" fundamenta-se nos resultados de pesquisas e estudos até hoje desenvolvidos e discutidos em sessões dedicadas a questões culturológico-ambientais no âmbito de atividades desenvolvidas em vários países.

O projeto "Cultura-Natureza" pretende, assim, de forma pioneira,

  • desenvolver sistematicamente o edifício teórico de uma Culturologia de Orientação Ambiental em Ética de Respeito à Vida a partir de Análises Culturais;
  • criar estruturas adequadas para a sua discussão, desenvolvimento e aplicação no ensino, na política cultural, no planejamento urbano e em outras áreas às quais possa contribuir. Para isso, pretende revitalizar e ampliar redes de trabalho científico-cultural da A.B.E. nos diferentes Estados do Brasil, sobretudo aquelas constituidas pelos colaboradores de projetos internacionais já desenvolvidos (Acre, Amapá, Amazonas, Goiás, Mato Grosso do Sul, Mato Grosso, Pará, Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul, Rondonia, Roraima, São Paulo, Tocantins); e
  • implantar cursos de especialização em nível de pós-graduação em cooperação com universidades para a formação de analistas culturais aptos ao trabalho interdisciplinar nas várias áreas do conhecimento e das atividades.

 

Textos relacionados com o programa disponíveis no site da A.B.E. na Internet:

  • Tulcea. Delta do Danúbio e delta do Amazonas - aproximações à luz do binômio Cultura/Natureza em função das dimensões transcontinentais do "cluster cultural danubiano"
  • Histria. Arqueologia de processos culturais do mundo de colonização grega do Mar Negro e suas repercussões no patrimônio cultural do Ocidente
  • Ion Corvin e Dervent - A cristianização da terra do Mar Negro e a potencialidade de imagens na tradição hagiográfica: a gruta de Santo André de Ion Corvin e Santo André "da borda do campo" no Brasil
  • Teplice-Sanov/Teplitz-Schönau. O Selvagem de Johann Gottfried Seume (1763-1810) - da experiência na América à imagem do indígena de sentimentos nobres
  • Prachvoské Skály/Prachauer Felsen. A Boêmia e os "boêmios" em Paris e no Rio de Janeiro. Theophile Gautier (1811-1872) e o "beau sauvage" Artur de Oliveira (1851-1882)
  • Horice. O nacional na música nos seus elos com processos político-culturais na Europa Central I: Da consciência política de Bedr?ich Smetana (1824-1884)
  • Herrenhausfelsen. Música e natureza: o órgão de pedras como monumento nacional
  • Museu Einar Jónsson (1874-1954). "Um eremita compenetrado que se eleva do mar entre a Europa e a América". Imagem da Islândia nas artes plásticas e o papel da cultura nas relações internacionais e na diplomacia
  • Pingvellir. A separação da Europa e da América no solo islandês e imagens narradas de povo que atravessou o mar. O Alpingi e a pedra da lei como fundamentos da identidade nacional
  • Hveragerdis, Bláa Lónid, Haukadalur e Laugarvatn. A imagem da Islândia e de sua natureza no passado e no presente. Transformações na percepção do patrimônio natural sob especial consideração de fontes geotermais e geysirs. Carl Gottlob Friedrich Küchler (1869-1945) e Robert Bunsen (1811-1899)
  • Gulfoss. As desaparecidas Sete Quedas e as quedas douradas de Gulfoss. Um exemplo da Islândia para o Brasil: Sigrí?ur Tómasdóttir (1874-1957)
  • Gardar, Akranes. Área museal de Gardar. O oceano na vida dos islandeses e elos inter-atlânticos. O canto religioso na vida doméstica de comunidades marcadas pelo mar
  • Snorrastofa, Reykholt -Centro de Pesquisas e área histórica de Reykholt. Snorri Sturluson (1179-1241) - o Descobrimento da América na Saga de Olaf Tryggvason no Heimskringla. Ocasiões de cultivo de sagas - práticas nórdicas (Snorralaug)
  • Catedral de Pangim. As águas do Mandovi correndo ao Mar Arábico e o culto à Imaculada Conceição na Índia: Sereia, terreiros e ninfas em Goa
  • Igreja de Santa Ana/Talauli. Do numinoso de terras baixas assoladas pelo monsum e do sentido de associações fálicas da Festa dos Pepinos em Santana de Talauli(m) - monumento do Barroco indo-europeu
  • Halifax. Public gardens. Jardins, bandas e coretos na vida urbana em seus elos com a Escócia, a Irlanda e a Inglaterra. Pelo The Canadien Naval Centennial 2010
  • Québec. Jardin Jeanne d'Arc. Paisagismo e identidade em situações interculturais franco-inglesas e suas relações com a imagem do homem no paradigma de Joana d‘Arc
  • Montréal. Musée Marguerite Bourgeoys. Mar e rios nos estudos culturais Canadá/Brasil: tradições imagológicas comuns no exemplo de Notre-Dame-de-Bon-Secours
  • Boston. The Peabody Museum, Harvard University. O Brasil nas coleções do Peabody Museum de Harvard: Louis Agassiz (1807-1873). Questões de continuidade à luz da exposição "Storied Walls"
  • Bar Harbor. Acadia National Park, Maine. Amazonas e Arcádia: Cultura/Natureza em associações mitológicas do Humanismo no continente americano e o seu significado para a história de parques nacionais e do paisagismo
  • Bar Harbor. The Abbe Museum I. A serviço da celebração do patrimônio nativo: ciclos, circularidades e o esférico no universo indígena em reflexões brasileiras e norte-americanas
  • Jardim Botânico do Fort Canning e National Museum. Cultura/Natureza e questões de Direito nas relações Brasil-Sudeste da Ásia: 1) Alfred Russel Wallace (1823-1913); 2) José d‘Ameida Carvalho e Silva (1784-1850). Antecedentes à introdução da Hevea brasiliensis nas colonias britânicas em desrespeito a normas de procedimento nas relações internacionais
  • Pau-brasil e madeira de sândalo: Brasil e Havaí na história da dilapidação do mundo natural após o contato com europeus e esforços de recuperação de áreas degradadas em região açucareira de imigração portuguesa. O Hawaii Tropical Botanical Garden
  • Vulcões na história das transformações culturais no Pacífico e no Atlântico. Hinos na desacralização do Kilauea pela chefe Kapi'olani (ca. 1781-1841) e significado do culto ao Espírito Santo no contexto vulcânico dos Açores
  • "Cordas soltas da alma na serenidade das noites havaianas e brasileiras". Serenatas e serestas em diferentes contextos e suas implicações músico-antropológicas
  • Taiti e Brasil na história das concepções antropológicas: a questão do "noble sauvage" e suas expressões na representação cultural da atualidade
  • A Polinésia Francesa na história cultural da Botânica e o paisagismo de reabilitação natural. Jardin d'eau de Vaipaihi como modêlo
  • Taiti-Caribe-Brasil na história das relações transcontinentais e seus elos com transplantes vegetais. Fruta-pão na aventura do Bounty e a imagem da jaca no Brasil
  • Bora Bora e Brasil: "Romântica do Mar do Sul" nas suas transformações e extensões: da viagem de cocos e da difusão de coqueiros
  • Moorea e Rio de Janeiro na história das observações científicas e o sentimento estético. Papel do Taiti no desenvolvimento dos estudos americanos. Georg Forster (1754-1794) e Alexander von Humboldt (1769-1859)
  • O abacaxi como contribuição do Brasil ao Taiti. Da amorosa planta peregrina dos indígenas ao pomo de ouro da ilha de Venus
  • Essen: "Atol da Arte e da Ciência" e a continuidade do projeto "Apocalipse do Amazonas"
  • "Comunhão de vivências" e alemães na história do turismo cultural no Brasil. Friedrich Riemer: No Itatiaia
  • O interêsse econômico de resultados da pesquisa científica no jornalismo cultural. Von Falkenberg: A palmeira Babassu, uma mina vegetal
  • Cultura e Natureza em visões do Homem: Île de France e Brasil. Paul et Virginie de B. de Saint-Pierre (1737-1814)  e Inocência (1872) do Visconde de Taunay (1843-1899)
  • Do Oriente ao Brasil pela Île de France: Cravo, noz moscada
  • Da Guiana francêsa à Île de France e ao Brasil: Palmeira real ou imperial
  • Índico na história britânica da observação da Natureza: Charles Darwin em Maurício
  • Da Guiana inglêsa à Europa e a Maurício: Victoria regina
  • Arte em ferro inglêsa em Jardins Botânicos do Índico e do Pacífico
  • Álvaro Duarte. Burle Marx e suas origens
  • Manuel de Araújo Porto-Alegre, Barão de Santo Ângelo (1806-1879) à luz de Alexander von Humboldt (1769-1859). A natureza pela face misteriosa do coração
  • Cultura e Ética sob a perspectiva dos Estudos Interculturais
    no contexto das relações franco-alemãs e suas irradiações no Hemisfério Sul
    1969-2009: 40 anos de trabalhos de renovação teórica dos estudos França-Brasil e Alemanha-Brasil
  • Haut-Andlau. Crise da Cultura e suas causas éticas. Relendo análises filosófico-culturais de Albert Schweitzer e "O Espírito das Catedrais" de Paulo Duarte (1899-1984)
  • Obernai. Perspectivas católico-francesas: Cientismo evolucionista como causa do Pangermanismo e retrocesso ético-cultural. Paul Bourget (1852-1935) contra Ernst Haeckel (1834-1919)
  • Mittelbergheim. Interiorização na cultura do quotidiano e Ética de Respeito à Vida na África e no Brasil. O papel da mulher na difusão e realização de ideais de A.Schweitzer
  • Burnie. Veneratio vitae: Relações entre o Homem e os outros seres viventes na Ética. Significado do pensamento de A. Schweitzer para países de formação colonial marcados pela destruição da Natureza e extinção de espécies: Brasil e Austrália
  • Porto Alegre RS. Educação Musical a serviço da Ética. Aula da sessão inaugural do projeto de Licenciatura em Educação Musical à distância da Universidade Federal do Rio Grande do Sul
  • Ano Darwin 2009: Teoria da Evolução e a perspectiva teórico-cultural em contextos internacionais: Europa-Brasil-Austrália
  • Sydney. Darwin na Austrália e no Brasil. Literatura de difusão popular e historiografia intercultural: Victor Wolfgang von Hagen (1908-1985)
  • Adelaide. Presença da Amazônia em Adelaide: Vitoria Regia.  Robert (1804-1865) e Richard Schomburgk (1811-1891)
  • Adelaide. Austrália e Brasil na história do Evolucionismo e de concepções evolucionistas na Antropologia e na Sociologia. Ladislau Neto (1838-1894) e Eunápio Deiró
  • Melbourne. Vitoria Regia e seu significado para a arquitetura e para a história cultural da indústria e comércio. Joseph Paxton (1803-1865) e o Palácio de Cristal
  • Melbourne. Austrália e Brasil em Darwin. Papel do Brasil no desenvolvimento da Teoria da Evolução
  • Melbourne e Sydney. Evolucionismo e Religião. Reflexões na Austrália sobre uma Pré-História de fundamentação bíblica no Brasil: Raymundo Ulysses de Pennafort
  • O Naturalista em contextos transcontinentais no século XIX: Thomas Belt (1832-1878)
    "...the contemplation of nature...is one of the great sources of happiness"
  • Teuto-brasileiros na história da Teoria da Evolução. Johann Friedrich Theodor Müller (Fritz Müller) (1822-1897)
  • Percursos interoceânicos e o vale do Amazonas. Visões da floresta tropical e de desenvolvimentos cosmopolitas
  • O café nos estudos culturais de Costa Rica e do Brasil: elos e paradoxos
  • Musa sapientium: Da banana na história cultural e da banana como alegoria
  • "Integração do passado no presente". De alegoria à natureza na reconstrução teatral. Aproximações entre Lübeck e Porto Alegre pelos 150 anos do Teatro São Pedro
  • Petrohue. Patrimônio natural do Cone Sul e patrimônio cultural. Parques nacionais do Chile
  • Puerto Madryn e Buenos Aires. Consciência latino-americana e problemas de consciência: Direito de animais como fator cultural
  • Similaridades entre a Índia e as Américas. Falta de compaixão pela Natureza é falta de cultura. Relendo Tagore
  • Sabedoria védica no Ocidente e Consciente: Matança de animais como problema básico da cultura. Considerando Prabhupada
  • Prioridade da natureza e teoria da cultura. 25 anos do fim das Sete Quedas e 15 anos da Conferência do Meio Ambiente no Rio de Janeiro
  • De-espiritualização da Natureza e teoria da cultura. 1992-2007. 15 anos do V° Centenário do Descobrimento da América e dos 500 Anos da Evangelização da América
  • Prioridade da Natureza na teoria histórico-genética da cultura e teoria da cultura de orientação ambiental: diferenças
  • História das explorações geográficas e memória da natureza: Giacomo Bove (1852-1887) e as Sete Quedas de Guaíra
  • Brocken/Harz-Caparaó/Espírito Santo. Ciclo pelo Ano Goethe I. Natureza como fundamento de reflexões filosófico-culturais em contextos internacionais. Harz e Caparaó: Relendo o "O Granito" de J. W. Goethe
  • Wörlitz. Expansão e significado teórico-cultural do paisagismo inglês. Natureza, cultura e qualidade de vida
  • Ecooperação. Palmyos da Paixão Carneiro
  • Culturas indígenas e meio ambiente
  • Santa Teresa, RJ. Memória e preservação patrimonial: Cultura e meio ambiente. Princesa Teresa da Baviera e Carl von Koseritz
  • Rio de Janeiro: Fundação Castro Maier. Chácara do Céu e Museu do Açude
  • Confissão, cultura e ambiente: Relações e mudanças
  • Identidade cultural, natureza e sustentabilidade ecológica. Fundação César Manrique, Lanzarote

 

Culturologia e Ambiente

As Ciências Humanas - "Geisteswissenschaften" (Ciências do Espírito) no mundo de língua alemã - encontram-se atualmente nas universidades e em institutos de estudos e pesquisas de vários países em processo de renovação. Caminhos são procurados para que essas disciplinas científicas possam melhor corresponder às exigências do presente, determinadas pelo intercâmbio intensificado de informações no contexto da globalização e das possibilidades abertas pela Internet. Cooperações internacionais, novos aportes teóricos e procedimentos metodológicos procuram transpor fronteiras disciplinares, contribuindo, assim, para a necessária superação de delimitações de visões e perspectivas, sobretudo aquelas de cunho eurocêntrico. Até mesmo na Filosofia, que tradicionalmente representa a instância básica, de supremacia ou de guia das Ciências Humanas, levantam-se vozes a favor da interculturalidade e, consequentemente, de uma Filosofia Intercultural.

Cada vez mais surge o termo Cultura como palavra-chave na reestruturação teórica das Ciências Humanas. Constata-se, assim, em várias universidades e publicações, o uso crescente do termo Ciências da Cultura. Essa denominação passa a ser vista como mais adequada para a designação do conjunto de disciplinas e áreas de estudos que se ocupam com fenômenos e processos culturais sob diversos aspectos. A elas pertencem, de forma privilegiada, o que no Brasil tradicionalmente se denomina de Estudos do Folclore (Volkskunde em alemão, hoje também Etnologia Européia), a Etnologia ou Antropologia Cultural, a História das Artes, a Musicologia, a Ciência Comparativa das Religiões e vários outros ramos do conhecimento, sobretudo também aqueles de origem mais recente, tais como as Ciências da Mídia e as da Comunicação.

Essa concepção de Ciências da Cultura no plural leva porém apenas a uma simples substituição de denominações. As propostas mais inovadoras são aquelas que partem da existência de uma Ciência da Cultura no singular, ou Culturologia, compreendida como ramo inter-e transdisciplinar. A discussão a respeito da Culturologia é marcada, porém, por uma grande variedade de aproximações teóricas, de propostas metodológicas e de focalizações de problemas. As diversas posições e correntes de pensamento são, apesar de todas as preocupações interculturais e transnacionais, determinadas pelos respectivos contextos culturais. Assim, os aportes do "Cultural Studies" levam às suas origens britânicas, aqueles do pensamento pós-estruturalista sobretudo aos teóricos franceses e à recepção de suas obras nos Estados Unidos.

Consistência e coerência da Culturologia como disciplina exigem precisões esclarecedoras do objeto de estudo e isto pressupõe reflexões teóricas a respeito do conceito de cultura e da sua noção em diferentes contextos e situações. Reflexões terminológicas desempenham necessariamente um papel relevante nos trabalhos culturológicos, uma vez que oferecem as pré-condições para a determinação do objeto de estudo e dos procedimentos científicos.

Reconhecer que o quadro das ciências culturais transmitido e hoje ainda dominante representa já em si uma construção cultural significa aceitar que a Culturologia não pretende levar à extinção das disciplinas particulares, mas sim analisá-las no referente às diversas concepções culturais nelas vigentes e contribuir para o diálogo inter-e transdisciplinar. Assim, ela se ocupa com desenvolvimento das várias disciplinas, a sua diferenciação e, portanto, com as suas características nas diversas instituições e regiões. Essa tarefa não se reduz apenas àquela da História da Ciência. Para cumprí-la, a Culturologia deve investigar redes de relacionamentos que determinam as correntes de pensamentos, a história de suas respectivas origens, dos seus condicionamentos, das suas dependências, de seus caminhos particularizantes e da sua dinâmica atual. Ela não pode deixar de se ocupar com as condições sociais do trabalho científico nos determinados contextos culturais, o que contribuirá para a elucidação dos caminhos da recepção do saber e de sua produção. A Culturologia necessita, portanto, agir em conjunto com uma Sociologia da Ciência e, em sentido ainda mais abrangente, com uma Pesquisa da Ciência ou Ciência da Ciência ("Science of Science").

O debate a respeito da Culturologia deve fundamentar-se, naturalmente, numa constante reflexão a respeito do conceito de Cultura. A discussão desse conceito, porém, não se pode limitar em salientar a diferença existente entre o conceito secular de Cultura no sentido de cultivo e aquele de acepção mais ampla empregado na Antropologia Cultural e hoje vigente e em geral aceito. Todas as reflexões dedicadas à conceituação de Cultura necessitam por fim atentar à etimologia da palavra, à história e tradição de seu uso e, com isso, à sua relação com o conceito de Natureza. O debate a respeito do relacionamento entre a Cultura e a Natureza na história e no presente do pensamento e da prática em diversas situações sócio-culturais é imprescindível para o desenvolvimento da Culturologia. Apenas um direcionamento das atenções a essa fundamental relação é que poderá colocar essa transdisciplina na posição de desenvolver conceitos que a permitam superar relatividades determinadas por condicionamentos culturais, tornando-a útil para servir a uma reorientação das disciplinas humanas no sentido de melhor servirem às exigências globais de desenvolvimento e de proteção ambiental.

Para que essa discussão possa ser levada a termo de forma qualificada, porém, há a necessidade de diálogo com os estudiosos que se ocupam com o meio ambiente e com a ecologia em geral, assim como com aqueles que mais atuam na organização do uso do meio natural, tais como arquitetos, urbanistas e planejadores. A Culturologia serviria, assim, não apenas como ramo inter-e transdisciplinar no quadro das ciências que até hoje se dedicam a estudos de fenômenos culturais, mas sim também como ponte entre Ciências Humanas, Ciências Naturais e Ciências Aplicadas. A forma como o homem atua sobre a natureza, a utiliza e transforma surge como expressão cultural e de cultura de comunidades e da nação por excelência. Para que a Culturologia possa atingir esses fins, torna-se necessário desenvolver um amplo programa de pesquisas e debates que inclua instâncias universitárias de todas as áreas e esferas não-universitárias do conhecimento, das artes e de outras atividades. Pré-condição para os trabalhos é a realização de análises culturais.

 

Análise Cultural de orientação ambiental

Na corrente britânica e norte-americana dos "Cultural Studies", a atenção dos estudiosos da cultura se dirige sobretudo ao Popular, focalizando fenômenos e processos culturais pouco considerados no passado, tais como aqueles vistos como triviais, banais, de massas, popularescos ou próprios de classes operárias, de subculturas e minorias. O termo "Cultural Studies", na acepção que foi-lhe dada desde 1964 pelo "Birmingham Centre for Contemporary Cultural Studies", passou a ser, assim, um conceito condutor de estudos altamente diversificados.1 Os principais temas tratados dizem respeito às diferenças culturais, tais como questões relativas à alteralidade, a mentalidades e à xenologia.2 Apesar de todas as distinções teóricas, aceita-se, em geral, a noção de cultura como texto, considerando sobretudo posições francesas e norte-americanas, tais como a análise de discurso de Michel Foucault e os conceitos antropológico-culturais de James Clifford3 e Clifford Geertz.4

Apesar das possibilidades integrativas proporcionadas por essa perspectiva no quadro das múltiplas posições no âmbito dos "Cultural Studies", critica-se cada vez mais a heterogeneidade dessa trans-disciplina, fato implícito na sua própria denominação, por demais genérica e imprecisa. Para superar essa falha, tem-se preferido o termo Análise Cultural, um conceito, aliás, já discutido no Brasil desde 1968.5

Em geral, a discussão orienta-se, aqui, segundo perspectivas desenvolvidas por Mieke Bal, diretora do "Amsterdam School for Cultural Analysis" (ASCA), fundada por ela em 1993, juntamente com o filósofo Hent de Vries e o antropólogo Peter van de Veer. Nas suas obras, entre outras "Narratology" (1985/1997)6 , Reading Rembrandt (1991)7 "Double Exposures. The Subject of cultural Analyses" (1996)8 e Quoting Caravaggio: Contemporary Art, Preposterous History (1999)9 , e sobretudo através de estudos da Poética visual, M. Bal tem procurado salientar o papel fundamental exercido pelos conceitos na Análise Cultural, entendida como ação de exame pormenorizado de objetos culturais. Os conceitos, segundo ela, desempenham o papel de um terceiro parceiro entre o pesquisador e o objeto de estudo, desencadeando processos altamente produtivos. Para isso, porém, devem ser continuamente observados e não aplicados de forma teoretizante, como etiquetas, mas sim "confrontados", de modo a permitir que o objeto de estudo "responda" na dinâmica interação de um constante processo reflexivo.10

A contribuição mais significativa do pensamento de M. Bal para a discussão da atualidade tem sido aquela relacionada com as suas concepções narratológicas. A autora faz diferença, na narração, entre o sujeito que fala - a voz - e o sujeito que "vê" ou focaliza. Ela contrapõe, aqui, um princípio verbal ou sonoro a um princípio visual. Como M. Bal não considera a narração apenas como sendo um gênero literário ou verbal, mas sim como uma espécie de discurso ou modo medial que também vale para fotografias, encenações, ações e todos os "artefatos culturais que contam uma estória".11 A narratologia de M. Bal surge como instrumento analítico útil para interpretações plausíveis de fatos culturais. Como a autora salienta, essa plausibilidade representa uma expressão de comunicabilidade intersubjetiva, fundamental característica do procedimento analítico. A intersubjetividade deve ser compreendida como possibilidade de discussão entre sujeitos além de fronteiras disciplinares, institucionais ou históricas.

Por mais relevantes e úteis que sejam as proposições de M. Bal, elas se revelam, entretanto, passíveis de críticas e correções, algumas delas de natureza básica. Para tal, os estudos culturais brasileiros levantam questões e abrem novas perspectivas para um debate mais profundo e pormenorizado. Assim, por exemplo, a narratologia de M.Bal não é entendida como sistematização abstrata e descritiva de estruturas narrativas universais e transhistóricas ou de tipologização. No entanto, considerando o fato de que várias expressões dramáticas, coreográficas e lúdicas da cultura brasileira foram empregadas no processo de cristianização do país no período colonial, e portanto implantadas consciente ou inconscientemente em mecanismo cultural quase que de natureza pedagógica, torna-se necessário, antes de mais nada, que se compreenda a natureza tipológica/anti-tipológica de tais representações culturais,12 pois foi justamente essa qualidade do sistema de ordenação simbólica dessas expressões culturais que possibilitou a transformação cultural e/ou a metanóia dos indígenas na ação missionária.13

Esse mecanismo transformador inerente a tais expressões culturais não é apenas válido para o Brasil. Ele deve ser considerado em análises culturais de outros países latino-americanos e de todos os processos culturais decorrentes de catequese e de encontros não-dirigidos de culturas religiosas não-cristãs com o cristianismo. A consideração desse mecanismo intrínseco de transformação cultural falta na teoria da análise cultural de M. Bal, o que a torna inadequada para estudos culturais globais. Esse fato não diminuiria o mérito e a utilidade de seus enfoques e proposições, caso a sua metodologia fosse considerada dentro de uma necessária contextualização cultural e, portanto, relativada.14 Entretanto, ela corre o perigo de ser considerada como de validade universal, apta a análises culturais em todas as situações e todos os contextos.

Assim, por ter sugerido a idéia dos "conceitos viajantes", das noções que se locomovem entre as várias disciplinas e se transformam,15 e por tê-la desenvolvido em atividades exercidas em vários países da Europa e da América do Norte, M. Bal surge como uma praticante de estudos culturais transnacionais.16 Mais especificamente, porém, as suas reflexões dizem respeito a obras e a instituições do mundo ocidental, ou melhor, de determinados segmentos de processos culturais euro-norteamericanos.

Nesses aspectos questionáveis da metodologia analítico-cultural segundo a Escola de Análise Cultural de Amsterdam, e que aqui apenas podem ter sido considerados de forma pontual e de passagem, revela-se um dos problemas fundamentais do movimento de renovação das disciplinas culturais na Europa. Apesar de todo o posicionamento crítico com relação às estruturas disciplinares convencionais, aos julgamentos de valor e aos preconceitos culturais, corre-se o perigo de um novo eurocentrismo e colonialismo cultural em recentes tendências do pensamento e da prática universitária. Aqui cabe, portanto, a países como o Brasil, portadores de perspectivas resultantes de outras situações e que apresentam um significativo desenvolvimento da reflexão teórico-cultural, o direito de apontar reducionismos em propostas teóricas e a responsabilidade de oferecer contribuições à discussão renovadora das ciências da cultura sob as condições globalizantes da atualidade.

A.A.Bispo
Todos os direitos reservados

 

1 Cf. Bromley, Roger, "Cultural Studies gestern und heute", in: Roger Bromley, Udo Göttlich, Carsten Winter (Ed.): Cultural Studies.Grundlagentexte zur Einführung, op.cit. 9-24.

2 Alguns desses temas foram discutidos, no Brasil, no âmbito do Congresso Internacional de Estudos Euro-Brasileiros, realizado em 2002 no Rio Grande do Sul, em São Paulo e no Rio de Janeiro. Cf. Musik, Projekte und Perspektiven: Postkolonialismus/Kulturidentät/Immigration; Rural/Tribal; Memoria/Zukunft, Aus dem Internationalen Kongreß Euro-Brasilianischer Studien 2002 zum Abschluß des Trienniums interdisziplinärer Tagungen, Colonia: I.S.M.P.S. 2003.

3 The Predicament of culture. Twentieth-Century Ethnography, Literature and Art, Cambridge (Massachusetts): Harvard University Press 1988.

4 Cf. Dichte Beschreibung: Beiträge zum Verstehen kultureller Systemem, Frankfurt a. M. 1987.

5 No âmbito da Sociedade Nova Difusão Musical, fundada em São Paulo e responsável pela criação do primeiro Centro de Pesquisas em Musicologia do país.

6 Narratology. Introduction to the Theory of Narrative [1985], Toronto: University of Toronto Press, Nova edição, revista e ampliada 1997.

7 Reading "Rembrandt". Beyond the Word-Image Opposition, New York: Cambridge University Press 1994 [1991].

8 Double Exposures. The Subject of Cultural Analysis, New York: Routledge 1996.

9 Quoting Caravaggio. Contemporary Art, Preposterous History, Chicago: University of Chicago Press 1999.

10 M.Bal, Kulturanalyse, op.cit. 18.

11 M. Bal, On Story-Telling: Essays in Narratology, Sonoma (California) 1991, 75-109.

12 O autor analisou esse mecanismo em: Typus und Anti-Typus: Analyse symbolischer Konfigurationen und Mechanismen zur Erschliessung neuer komparatistischer Grundlagen für den interreligiösen Dialog und den Dialog der Kulturen, Colonia: I.S.M.P.S. 2003.

13 Cf. A. A. Bispo, "Interaktionen von Systematik und Geschichte in der Analyse musikhistorischer Mechanismen transformatorischer Kulturidentitäten: Maraca und Viola", in: Musik, Projekte und Perspektiven , op.cit..

14 Cf. Friedrich Kittler, Eine Kulturgeschichte der Kulturwissenschaft, München: Fink 2000.

15 Cf. Joyce Goggin, Sonja Neef (Ed.): Travelling Concepts I. Text, Subjectivity, Hybridity, Amsterdam: ASCA 2001.

16 Cf. Thomas Fechner-Smarsly e Sonja Neef, "Kulturanalyse: Zur interdisziplinären Methodologie Mieke Bals". Mieke Bal, Kulturanalyse, op.cit., 335-356, 337