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ESTUDOS SÓCIO-CULTURAIS: BASES PARA A PESQUISA DAS CORPORAÇÕES
MUSICAIS
(1973)
Antonio Alexandre Bispo
Nesta conferência vamos tentar lançar as bases para uma área de
estudos até hoje pouco considerada no Brasil: a da pesquisa das
bandas de música. Vamos procurar demonstrar que esta pesquisa
tem um interesse não apenas para o aumento do nosso conhecimento
a respeito da cultura do nosso povo em geral e da música em particular,
mas também para a ação consciente político-cultural de apoio e
fomento da iniciativa particular. Achamos que este tema seria
de particular interesse para este centro do Serviço Social do
Comércio, uma vez que é o comércio que sobretudo manteve e mantém
grande parte de nossas corporações musicais.
Os nossos músicos de banda sempre lamentam a falta de subvenções
governamentais suficientes, o que parece manifestar um pouco interesse
perante a prática amadorística da música. Apesar disso, muitas
delas possuem escolas de música de muita procura, demonstrando
um extraordinário esforço particular pelo ensino e pela prática
da música, empenho este que deveria ser valorizado e apoiado.
Os estudiosos podem e devem contribuir à valorização deste trabalho,
revelando, através de pesquisas e estudos, a importância que as
bandas de música possuem e o papel que exerceram e exercem no
país. Para isso, porém, temos necessidade de dados seguros e de
observações da realidade que permitam a construção de um edifício
de conhecimentos e a elaboração de critérios adequados de avaliação.
Temos a necessidade, em primeiro lugar, de uma visão geral da
situação das bandas de música nas várias regiões do país, dos
seus mestres e músicos, dos seus repertórios, de sua história
e seus problemas atuais e, sobretudo, do papel social e cultural
desempenhado pelas corporações nas respectivas localidades e regiões.
Nessa conferência vamos apresentar alguns resultados de levantamentos
realizados, em janeiro e fevereiro de 1972, em bandas de música
de localidades do litoral do Rio de Janeiro, do Espírito Santo,
da Bahia, de Sergipe e Alagoas. Trata-se, certamente, da primeira
grande tentativa de um estudo sistemático das bandas de música
brasileiras a nível nacional, ou melhor, supra-regional.
Em primeiro lugar, porém, cumpre salientar que, para sermos justos
no nosso procedimento, precisamos abandonar, ou melhor, relativar
os parâmetros que determinam o nosso próprio universo musical.
Nossa perspectiva, analisada de "fora", apresenta aspecto singular:
é definida, fundamentalmente, pelos vultos e obras dos grandes
compositores do passado europeu. Apesar dos esforços de nossos
músicos renovadores, vivemos num ambiente musical onde os "semi-deuses"
da arte permanecem na sua grandiosidade de imortais. O grande
público da música erudita é, ainda, o público dos "grandes mestres".
O passado, aqui, renovado continuamente em cada interpretação,
vive e se torna quase que independente do tempo. O apreciador
de música, o ouvinte, não tem, primordialmente, interesse numa
ilustração da história da música, mas sim vive uma música "eterna",
desligada do espaço e do tempo. Os grandes compositores perdem
as suas características humanas, de homens compreendidos no processo
histórico, transformando-se em verdadeiros postulados em nossos
programas de concerto e conservatórios.
O universo musical de nossos músicos "eruditos" populares, porém,
é totalmente diverso. Na sua quase totalidade, pouco ouviram falar
dos nossos alicerces básicos, Bach e Beethoven. O único compositor
de um passado mais remoto e não local ainda lembrado, com seus
retratos espalhados pelas paredes de quase todas as sedes de bandas,
é A. Carlos Gomes. Mesmo assim, dentro da nebulosa concepção de
passado do nosso homem do povo, é êle visto como uma espécie de
bisavô dos mestres, um antigo compositor de dobrados e do Il Guarany,
este quase sempre presente nas estantes. Nas bandas visitadas,
poucos souberam dar dados mais precisos a respeito do compositor
campineiro, que não poucas vezes se transformou em baiano ou capixaba.
Assim, o saxofonista Ivan Serra, da banda musical "Oliveira Filho"
de Conceição da Barra, achava que ele era "o Nado não sei de quê,
que deu o nome da banda".
Ocorrem, é verdade, nomes famosos de compositores europeus na
prática musical de muitas de nossas filarmônicas. Trata-se geralmente
de autores de óperas. Esse fato ocorre em maiores proporções nas
cidades de grandes possibilidades de intercâmbio com as capitais.
É o caso das bandas de várias cidades do Estado do Rio de Janeiro,
como a extraordinária "Sociedade Musical Nova Aurora" de Macaé,
possuidora de um rico acervo de obras de Cimarosa, Rossini, Verdi,
mas também de valsas de J. Strauss e até mesmo de obras de F.
Mendelssohn-Bartholdy. Também encontramos muitas obras "clássicas"
nas bandas ao redor de Salvador, como nos arquivos da "25 de março"
de Feira de Santana e das filarmônicas de Cachoeira de São Félix
e Santo Amaro da Purificação. Às vezes, porém, os músicos não
conhecem os autores dessas músicas "clássicas" que executam. Classificam-nas
em geral com o nome genérico de "músicas de harmonia". No presente,
o maior contacto das corporações com as capitais é realizado com
a fábrica de instrumentos Weril de São Paulo, cujos catálogos
podem ser encontrados até mesmo em distantes localidades. Também
determinadas editôras e lojas de música são responsáveis pela
grande divulgação de composições de determinados compositores,
tais como de Ubaldo de Abreu e de Antonino do Espírito Santo.
Tal fato demonstra a importância do comércio neste tipo de prática
musical.
A mistura está feita: o universo no qual devemos procurar entrar
é determinado pelas obras "de harmonia", por composições de autores
da região, músicas de ilustres mestres já falecidos, composições
compradas ou emprestadas de outras cidades, e arranjos de marchas
famosas realizados por músicos locais.
Também precisamos salientar que o conceito de valor, de originalidade,
de propriedade e de direitos autorais muitas vezes difere do nosso.
Várias vezes encontramos temas de marchas conhecidas ou de músicas
populares apresentados como legítimas criações. Lembramos aqui,
por exemplo, da "Marcha N° 2" de Agapito Catarino da França, e
de composições de Jalmeriz Pinheiro. Naturalmente, nesse caso,
não existe a preocupação pelo plágio e, quando acontece, é feito
inconscientemente, na honestidade e simplicidade do homem do povo.
Por outro lado, porém, o sentimento de propriedade é bem aguçado
quando se trata de composição ligada a determinada corporação
ou localidade. Muitas rivalidades surgiram e surgem motivadas
pelo roubo de peças.
Foi possível observar, na área pesquisada, tipos diversos de liderança
nos vários mundos musicais das localidades e regiões. Em zonas
de franca decadência musical, como é o caso do Recôncavo baiano,
os grandes mestres, sempre ainda lembrados, são já falecidos,
ilustres vultos que pendem das paredes das sedes, vidas e obras
inspirando o presente. Nas regiões onde as corporações ainda exercem
plenamente a sua função social, os mestres considerados como "grandes"
são vivos e continuam a escrever continuamente.
Tentamos definir melhor esses vários universos musicais levantando
os principais nomes do passado e do presente que surgem como líderes
ou vultos exemplares. Tentamos constatar o raio de sua influência,
através das composições e arranjos encontrados nos arquivos das
bandas. Com base nesses dados, podemos esboçar um esquema das
várias esferas de influência, o que nos permite uma espécie de
mapeamento capaz de nos auxiliar em futuras pesquisas mais detalhadas.
O método utilizado não foi o historiográfico, a partir do estudo
das fontes e dos documentos. Partiu-se não do passado para o presente,
mas sim do presente para o passado, ou seja, da memória viva,
dos vultos cultuados e lembrados. Com isso, partimos da tradição
e o que nos interessa é detectar as personalidades que determinam
a consciência própria e a auto-estima cultural das várias comunidades.
É a partir daí que deveríamos dar início ao trabalho de apoio
e fomento.
Vamos aqui apenas citar alguns nomes e obras que desempenham papel
relevante nas cidades e regiões pesquisadas. Partimos dos mestres
de hoje, ou seja, dos líderes ainda vivos. A seguir, vamos tratar
de alguns dos nomes dos mestres de ontem, ou seja, dos "mestres
dos mestres".
Entre os mestres vivos na atualidade, encontramos alguns já de
idade avançada. São eles vistos, em geral, como o esteio das corporações
e muito se teme que, com a sua morte, a prática musical desapareça.
Essa situação parece-nos típica de localidades com a vida musical
em decadência ou em fase crítica na própria consciência de seus
habitantes.
Vamos citar, como exemplo, um nome de importância no Norte do
Espírito Santo, Adolpho Serra, "maestro-regente" da "Banda Musical
Oliveira Filho" da cidade de Conceição da Barra. Foi ele primeiro
escrivão do cartório "Adolpho Barbosa Serra" daquela comarca,
cargo hoje ocupado por seu filho Humberto Oliveira Serra. Tendo
dedicado grande parte de sua vida à banda musical, é até hoje
respeitado e admirado pelos músicos como o alicerce da entidade.
Segundo um informante, "todos ficam só por êle". Já de muita idade
e doente, Adolpho Serra passa quase todo o tempo em Vitória, ficando
a direção da banda a cargo do seu filho Humberto. Nessa tradição
familiar, continua-se a executar algumas das principais composições
do velho mestre, entre as quais a "Marcha Nossa Senhora da Conceição",
tocada sempre na festa da padroeira da cidade. Sobretudo as valsas
de Adolpho Serra são lembradas, despertando nos músicos e habitantes
saudades dos velhos tempos. Entre elas, citamos as valsas "Conceição
da Barra", "Luiza de Abreu, "Itaunas", "Saudades de Argentina",
"Expansão da Dor" e, sobretudo, "Perfume de Violeta". Esta última
criou um verdadeiro anedotário. Dizem que o compositor a escreveu
para a sua amada e, como isso sempre dava ensejo a gracejos, escondeu-a.
Desde a nossa visita, mantemos contacto epistolar com músicos
de Conceição da Barra. Segundo as últimas informações, de 15 de
julho de 1972, Adolpho Serra já está "com a memória bastante enfraquecida,
umas das razões pela qual o movimento da Banda tem estado um pouco
paralisado; logo após as suas melhoras continuará as suas atividades,
pois é uma das alegrias do nosso povo".
Do litoral da Bahia, precisamos salientar Silvino Baptista Santos,
atual mestre da "Filarmônica XV de Setembro" da cidade de Belmonte.
Tendo aprendido música em Feira de Santana, na "Filarmônica 25
de Março", com Estevão Moura, com quem estudou também harmonia,
continuou o seu aprendizado nas cidades de Nazaré das Farinhas
e Santo Antonio de Jesus. Além de conhecer grandes mestres de
Feira de Santana, tais como Armando Nobre e Tertuliano Santos,
Silvino estudou com Antonio Braga, Antenor Bastos e João Azevedo.
Ao lado da música, trabalha como sapateiro, tendo a sua sapataria
montada atrás da filarmônica que dirige. Para ele, porém, essa
profissão serve apenas como "quebra galho", pois vive, na verdade,
da música. Silvino Santos vende as suas composições em várias
cidades da Bahia, tendo numerosos contactos em várias regiões.
Citamos agora um mestre de Salvador, Agapito Catarino da França,
regente da "Filarmônica Carlos Gomes" e responsável pela parte
musical profana das festas de Nosso Senhor do Bonfim. Esse mestre
orgulha-se de ter sido aluno de Heráclito Guerreiro, famoso mestre
de Maragogipe. Começou a aprender música em São Felipe e continuou
com o aprendizado em todas as cidades por que passou. Foi assim
discípulo de Ademar Gusmão, Estevão Moura, João Azevedo, Antonio
França. Já os nomes por êle citados dão pontos de partida para
futuras pesquisas e para a determinação da esfera, do universo
músico-cultural em que vive. Assim, Antonio França é citado como
um famoso professor e compositor de Cruz das Almas, antigo mestre
da "Sociedade Filârmônica Lira Popular" de Belmonte. Dele é lembrado
sobretudo um grande dobrado oferecido a Getúlio Vargas, o "19
de abril". Obras suas puderam também ser encontradas na "25 de
Março" de Feira de Santana, tais como a Marcha oferecida à Euterpe
Nazarena, a Marcha "Dona Enedina", dedicada a José Lavarés e que
traz como data o ano de 1939. A "Filarmônica Carlos Gomes" do
Bonfim executa várias obras suas, entre as quais um admirado "Dobrado
Roxo". O mestre Agapito Catarino da França impressiona pela responsabilidade
com que encara o seu trabalho e pela consciência em manter viva
a tradição e a memória de seus mestres. Da sua própria pena, porém,
tem apenas pequenas peças a apresentar. Frequentemente executadas
são as suas Marchinhas N° 1, N° 2 e N° 3, os seus Maxixes N° 1
e 2, alguns Sambas e sobretudo o seu Dobrado N° 7.
Vários outros nomes poderiam ser acrescentados na caracterização
desse mundo próprio das bandas de música da Bahia. Entre os mestres
mais idosos ainda presentes na memória dos músicos citamos Antonio
Soter de Barros, de Santo Antonio de Jesus, talvez o mais idoso
dos mestres baianos, com mais de oitenta anos, ainda lembrado
pelos músicos da "Filarmônica Vitória" de Feira de Santana. Outro
nome vetusto é o de Antonio Luz, grande mestre de Santo Amaro
da Purificação, hoje muito idoso e paralítico, mas cujos dobrados
e valsas, entre eles o dobrado "3 Irmãos" e a valsa "Izaura Borges"
ainda são executados pela "Lyra dos Artistas" de Santo Amaro.
A "25 de Março" de Feira de Santana mantém ainda o seu "Passo
doble José Pires de Carvalho Albuquerque" no repertório. Aliás,
esta corporação mereceria uma especial menção. Fundada em 1868,
a tradicional "25 de Março" está hoje sob a responsabilidade de
Claudemiro Dalto Barreto, vulgo "Miro", que, depois de 35 anos
como instrumentista, assumiu a sua regência há 7 anos. Natural
de Feira de Santana, Miro foi aluno de Estevão Moura, "o muito
amigo, irmão e professor", tendo-o educado na execução do trompete,
pois "tocava muito alto". A sua formação básica foi adquirida
em Sergipe, na cidade de Buquim, com um músico chamado de Zeca
Laranjeiras. Assim, as peças que compõe para o clube local, a
que chama de "brincadeiras", são, na sua maioria, frevos, entre
eles, "Parece, mas não é", "Pisa macio", "Sururú", "Os bodes",
"Frevo na lua", "Amigo da onça", "Tudo azul", "Museu de cera"
e "Agachando". Escreveu as marchas "Vem amor" e "Vou brincar na
Micareta" e os dobrados "Claudemiro Filho", "Verde-amarelo", "Recordação"
e "Estevão Moura". Dois músicos menores de Santo Amaro da Purificação
podem ainda ser lembrados. Um deles é Miguel Rodrigues, saxofonista
da "Lira dos Artistas", também compositor e professor. Da sua
obra, o atual presidente, João Borges, faz questão de salientar
o dobrado "Amaro Falcão", recém composto. O outro é Oswaldo de
Assis, pistonista e professor de música, atual mestre da "Lyra
dos Artistas". A respeito da sua obra, o atual presidente diz
que está, no momento, um tanto "fracassado" e retraído.
O vínculo musical entre o Recôncavo e Sergipe e Alagoas fica particularmente
evidente na carreira de João José do Nascimento, atualmente alfaiate
e mestre em Maragogipe, onde procura levantar a filarmônica "2
de Julho". Estudou em Propriá com o mestre Lauro do Carmo, atuando
em diversas localidades, principalmente em Estância, Alagoinhas
e Cachoeira de São Félix. No seu tempo, conta com orgulho, a cidade
de Estância atingiu um alto nível musical, chegando a possuir
três filarmônicas. Chegou a ser contramestre da "Banda Industrial
de Propriá". Entrentanto, resolveu "fundar um jazz e caiu na orgia".
Compôs muito, mas tudo se perdeu numa trágica viagem de barco,
quando a maré carregou todo o seu arquivo.
De Sergipe, podemos citar José Oliveira Neto, Aracajú, cuja marcha
"Guiomar Barreto" é executada pela "Filarmônica Coração de Jesus",
de Laranjeiras.
Talvez uma das figuras mais impressionantes dos mestres ainda
vivos de Sergipe é Joaquim José de Santana. Nascido em 1901, foi
músico da "Euterpe Maruinense" desde 1918, transferindo-se depois
para a Banda da Polícia de Aracajú. Seus professores foram Luís
de Barros Montesanto, de Divina Pastora, Lauro Carmo e Ceciliano
Avelino da Cruz, de Aracajú. Em 1935, por decreto-lei do prefeito
Cornélio Gonçalo Roembergue Prado, foi nomeado professor municipal
de música de Maruim. O seu primeiro serviço foi instrumentar uma
missa de um compositor alemão. Quando foi convidado para assumir
a regência da banda de Maruim, dirigiu-se ao seu último professor,
Ceciliano (Avelino da Cruz), pois sentia-se pouco seguro. Este,
porém, incentivou-o, prometendo apoio: "Ora, Santana, você pode
tomar conta da música de dois Maruins e depois disso, se você
encontrar um bicho cabeludo que sua navalha não raspe o cabelo,
você traga o bicho aqui, que eu tenho boas navalhas, raspo o cabelo
do bicho e você assina como se fosse seu".
Para terminar esta listagem de alguns de nossos mestres vivos,
vamos citar alguns nomes de Alagos. Em primeiro lugar, lembramos
de Anizio da Silva Pinto, tenente aposentado e contramestre da
"Sociedade Musical Francisco Carvalho Pedrosa" de Coqueiro Sêco,
em Alagoas. Também dele temos sobretudo dobrados, como o "Dois
goles, uma queda" e peças em rítmo de dança, como o bolero "Paixão
de Homem". Lembremos, por último de Braúlio Moreira Pimentel,
mestre e fundador da "Banda José Plech Fernando", de São Miguel
dos Campos. De tradicional família de músicos do povoado de Sebastião
Ferreira, aprendeu música, a partir dos 13 anos, com o próprio
pai, o maestro e compositor José Moreira Pimentel Filho. Este,
por sua vez, também estudara com o próprio pai. Bráulio é um afamado
autor de frevos, inclusive de letras. Só em 1971, compôs os frevos
"Deixa pra mim", "Nova orquestra", "Pode pedir bis", "A copa 70",
"Eu sou tubarão" e "Frevinho". Em janeiro de 1972 compôs os frevos
"União musical", "16 de dezembro", "Milton Leite", "Noites de
maratona", "Turma do mela-mela", "Viva a turma do Légua", "Sapo
Cururu" e "Ainda pode pedir bis". Curiosas são os seus frevo-canções,
tais como "Recuerdo", com letra de João Zacharias de Oliveira,
e "Eu sou". Só muito recentemente começou Bráulio a escrever música
"sem ser de brincadeira". Trata-se dos dobrados "Júlio Soriano
Bonfim", "Eliseu Marques de Lima", "Geraldo Sá", "José Quintella"
e "Coronel Pereira". Este último, no momento da pesquisa, estava
ainda incompleto, faltando-lhe a instrumentação. De Alagoas vale
a pena ainda citar Manoel Leandro Simplício, mestre da "Sociedade
Musical Professor Francisco de Carvalho Pedrosa" de Coqueiro Sêco,
nos anos sessenta. Atualmente, é mestre da banda do Colégio Industrial
de Maceió. Sua principal composição é o "Hino da Padroeira Nossa
Senhora Mãe dos Homens", executado anualmente em Coqueiro Sêco.
Vamos considerar agora alguns dos mais famosos "mestres dos mestres".
Em primeiro lugar, devemos lembrar do nome de Antenor Bastos,
compositor de Cachoeira de São Félix, filho do famoso mestre Tranquilino
Bastos. De sua lavra encontramos numerosas peças fúnebras, dado
o hábito de, até há pouco tempo, as bandas acompanharem enterros
de sócios e familiares. Obras suas são ainda executadas pelas
duas corporações de Feira de Santana. A "Sociedade Vitória" conserva
o "Hino Municipal", os dobrados "Rei Guilherme", "Severo", e as
marchas fúnebres N° 11, 16 e 32, além do "Funeral n° 10". A "Sociedade
25 de Março" mantém a sua "Fantasia Magnólia" e a Marcha N° 111,
denominada de "Moslova". Também a "Lyra dos Artistas" de Santo
Amaro da Purificação conserva a sua memória, dele executando o
"Raio de Ouro" e a "Fantasia Quo vadis". Um outro aluno de Tranquilino
Bastos é Ozório Marcelino de Oliveira, músico da Polícia de Salvador
e que viveu muitos anos em Santo Amaro da Purificação. Dele merece
especial menção a "Fantasia Força do Amor". Em Santo Amaro ("Lyra
dos Artistas") encontram-se as marchas "Virgem das Pérolas", "Almas
irmãs", "Ricardina", Esterlina", "Anita" e a valsa "Augusta".
Também de Cachoeira precisamos salientar Irineu Sacramento, autor
do "Hino a Cachoeira", cujos primeiros compassos acham-se pintados
na sede da "Sociedade Orpheica Lira Ceciliana".
De Feira de Santana, um dos mais lembrados músicos do passado
é Antonio Tertuliano dos Santos. Ele foi regente da "Vitória"
durante mais de 20 anos, passando depois, quase antes de morrer,
por motivo de desentendimentos, para a "25 de Março". Poucas são
as músicas que trazem o nome completo desse mestre. Ele assinou-as
como A. T. Santos, A. Tertuliano, A. Santos e até mesmo Santos.
É natural, portanto, que surjam casos duvidosos. No arquivo da
"Sociedade Vitória" encontram-se as valsas "Regina Santos" e "Anna
Fernandes", a "Polaka Adélia Victoria" (só assinata por T.S.),
os dobrados "José Froes", "Gociosinho", "Assis Govaza", "Alfredo
Cardoso", "Maneca Ferreira" (só assinado por Santos). Do acervo
da "25 de Março" faz parte o dobrado "João Martins".
Outro músico muito lembrado de Feira de Santana é Armando Nobre,
mestre da "Sociedade Filarmônica Euterpe". Segundo o atual regente
da "25 de Março", Miro, este compositor "escreveu demais...mais
de mil...", de modo que "as partes melódicas confundiam-se umas
com as outras", êle "esgotou o cérebro", de modo que as suas peças
pareciam umas com as outras. Dele, no acervo da "25 de Março",
encontramos a "Fantasia Alma Redentora" e marcha "Leda Silva"
e a marcha concertante "Lydia Borges". Em Santo Amaro da Purificação,
no arquivo da "Lyra dos Artistas", encontram-se dois dobrados,
o "Antonio Vasconcellos" e o "Recordação de Nilbela".
O maior vulto de Feira de Santana foi, entretanto, na opinião
de quase todos os mestres da Bahia, Estevão Moura. Foi quem "deu
vida" à "Filarmônica 25 de Março", estando à sua frente de 1932
a 1951. De sua numerosa obra, salientamos a "Grande Fantasia de
Concerto Conto de Fadas", orgulho dos músicos da "25". No arquivo
da "Sociedade Musical Vitória" encontramos os dobrados "Tusca",
"Ouro Preto", "Pedro Matos Barbosa". As suas composições foram
muito divulgadas, mesmo fora da Bahia. Na "Filarmônica Coração
de Jesus", de Laranjeiras, em Sergipe, encontramos a marcha para
procissão "Núbia" e o dobrado "Verde e branco". Além do mais,
Estevão Moura foi regente da orquestra e coro da Igreja de Santana
em Feira de Santana, onde algumas de suas composições ainda são
executadas na época das festas da padroeira. A sua "Novena" para
coro e orquestra era tão comovente que, no dizer de Miro, o próprio
compositor chorava ao ouví-la. Dele, o arquivo da "25 de Março"
guarda um "Domine ad adjuvandum". É, portanto, um mestre que mereceria
um estudo mais demorado, pois foi mantenedor da tradição coro-orquestral
da música sacra.
Dos músicos menores de Feira de Santana, vale ressaltar J. Camelieu,
tenente da polícia local e já há muitos anos falecido. A sua marcha
"Sons da Minerva" ainda é conservado no acervo da "25".
Outro famoso músico da região foi Heráclito Guerreiro, de Maragogipe,
regente da "Filarmônica Terpsícore" daquela cidade. Apesar de
simples percussionista, na informação de João José Nascimento,
foi renomado compositor, podendo-se encontrar obras suas em diferentes
cidades e regiões. Assim, anotamos um dobrado "Albino Souza" na
"Lyra dos Artistas" de Santo Amaro da Purificação, a marcha "Maria
Angélica" e os dobrados "Marco Bahia", "Renato Bahia", "O Kaiser"
e "Aurino Filho" em Feira de Santana, e, em Alagoas, um dobrado
"Filoca Santa Anta" na "Filarmônica Coração de Jesus" em Laranjeiras,
um dobrado "2X0" na "Sociedade Musical Francisco de Carvalho Pedrosa"
em Coqueiro Sêco.
Os únicos músicos do Recôncavo ainda lembrados que estão citados
na bibliografia histórico-musical são Miguel dos Anjos de SantAnna
Torres e Domingos Machado. Os seus nomes podem ser encontrados
na Storia della musica nel Brasile de V. Cernicchiaro. Miguel
dos Anjos é lembrado como grande executante de oficleide e autor
da "Novena de Nossa Senhora da Guia", executada anualmente na
Basílica do Bonfim, obra datada de 1892. Segundo o regente Walter
Boaventura, Miguel dos Anjos foi também autor de "lindos dobrados".
Domingos Machado, que foi também farmacêutico, conhecido apenas
como Domingos, é autor da "Novena de Nossa Senhora da Purificação",
executada anualmente na matriz de Santo Amaro.
Do sul da Bahia, uma figura de particular importância como "mestre
dos mestres" é Cláudio Hortênsio da Silva. Suas obras podem ser
encontradas em quase todas as filarmônicas. Segundo o contramestre
da "Lira Pradense", da cidade de Prado, Pedro Rodrigues, Cláudio
Hortênsio foi funcionário da estrada de ferro. Com a extinção
do ramal de Caravelas, abandonou a cidade e não se soube mais
do seu paradeiro. A "Lira Pradense" guarda as seguintes peças
de sua autoria: as marchas "Nossa Senhora da Ajuda", "Nossa Senhora
de Lourdes", "Senhor do Bonfim", "São Jorge", os dobrados "Wanderley
Borges, "13 de junho", "Lyra Conceição", "Manoel Ferreira dos
Santos" e a valsa "Esperança". De Caravelas, ele trouxe para essa
cidade os dobrados "João Celestino" e "Antenor G. de Assis". Na
"Lyra Santo Antonio", de Caravelas, encontram-se os dobrados "Liry
Santo Antonio", "Sonhos de outono" e "Netuno". Outro mestre da
"Lira Pradense" foi Oswaldo B. SantAnna, precursor do último
mestre, Eduardo Bonfim. A sua fama permanece viva de excelente
músico, que tocava todos os instrumentos da banda. De sua autoria,
é executado ainda o dobrado "Fazenda Pau Brasil". Na avaliação
do trombonista local Antonio José da Rosa, "a música do Oswaldo
é melhor que o Cláudio, pelo menos a música dele é ritmada, cantante".
De Porto Seguro, precisamos salientar Pedro Sérgio de Moraes,
mais lembrado como Pedro Inhac. O seu aluno, Manoel Dias da Silva,
já hoje com 62 anos de carreira de pistonista, considera-o como
um dos raros "clarineto de verdade" que encontrou na vida. De
sua autoria, encontramos na sede da banda de Porto Seguro o dobrado
"Porto Seguro" e a "Polaka Estephania". De uma geração mais nova
é Antonio Adueno da Silva, vulgo "Caneta", membro da antiga "Filarmônica
Lira dos Artistas" de Porto Seguro, antecessora da "22 de Abril"
e da atual "2 de Julho" (1949). Segundo o atual mestre Alício
Borges da Silva, "Caneta" era músico completo: "Tocava qualquer
instrumento até pelo nariz e escrevia direto da vitrola com a
caneta", de onde veio o seu cognome. Dele executa-se ainda o dobrado
"O Rei do mar".
De Sergipe, vale citar Ceciliano Avelino da Cruz, regente da Polícia
de Aracajú e renomado professor. Dele encontramos uma "Valsa infantil"
na "Filarmônica Coração de Jesus" em Laranjeiras e o dobrado "Lilia"
na "Euterpe Ceciliense" de Penedo, este datado de 1922. Também
o nome de José Machado dos Santos, da mesma forma membro da Polícia
de Aracajú, é lembrado por vários músicos. A "Filarmônica Coração
de Jesus" de Laranjeiras guarda o seu dobrado "4 Tenentes". O
mestre do atual mestre da "Euterpe Maruinense", José Alfredo Meirelles,
foi João Prado, um músico que ainda está vivo, mas com muita idade,
vivendo só em São Cristóvão. Costuma assinar as suas composições
de trás para a frente: P. Odarp B.J., ou seja: João B. Prado.
A banda de Maruim guarda as seguintes peças de sua autoria: dobrados
"João Prado" e N° 6, valsas "Verinha" e "1° de janeiro°, um samba
e um bolero.
De Alagoas, citamos em primeiro lugar Manoel da Silva Wanderley,
maestro e professor de música de Santa Luzia do Norte e patrono
da "Sociedade Musical Professor Wanderley". Ele é venerado pelos
músicos e habitantes dessa localidade. Dados a seu respeito puderam
ser obtidos graças aos esforços de memória de Dna. Rita Rodrigues
Pedrosa, que foi sua aluna de flauta. Segundo a informante, o
Professor Wanderley morreu pouco antes do seu casamento, mais
ou menos em 1933, a 21 de outubro. Já era bem velhinho, tendo
sido professor de seus pais. O seu pai tocava clarineta e a sua
mãe flauta e o Prof. Wanderley violino na orquestra da igreja.
"Era quase preto...morreu velhinho, decadente e pobre... minha
avó contava que êle aprendeu música fazendo um bandolim...na época
tinha outro professor famoso... Prof. Gitahy". No caderno de flauta
que pertenceu à sua mãe, conservaram-se as seguintes peças de
Manoel da Silva Wanderley: valsas "Coração que fala", "Carvalho",
"Dorme", "Pagan", e, como duetos, "O Gemido" e 5 "Quadrilhas Imperiais".
Todas as demais composições desse mestre, inclusive as maiores,
missas, ladainhas, novenas, etc. consideram-se perdidas, uma vez
que o atual mestre da "Sociedade Musical Professor Wanderley",
Sargento Jalmeriz Pinheiro, diz zelar pela música moderna: "o
arquivo está todo novo".
Ao lado desse mestre deve ser citado Júlio Catarino, compositor
e professor de Penedo, tendo também atuado em Santa Luzia do Norte.
Figura quase lendária pela sua exagerada pontualidade, costumava,
segundo a informação da citada Dna. Rita de Santa Luzia, quando
a cerimônia religiosa (ou mesmo tocada) não obedecia ao horário
previsto, tocar o seu trombone sózinho e ir embora. As suas obras
estão em poder de Osmar Catarino, residente em Maceió.
Muitos outros nomes poderiam ser citados. Vamos porém ficar por
aqui, pois creio que já demonstramos que, com a esse levantamento,
que cobriu vastas zonas do nosso litoral, foram lançadas as bases
para a pesquisa sistemática das bandas de música no Brasil. Estamos
conscientes, porém, que este é apenas um início. Já prolongamos
o levantamento para o litoral sul e estamos, aos poucos, examinando
a rede de contactos de mestres e instituições para o interior.
Precisamos agora, sobretudo, mantendo a visão geral, de estudos
mais detalhados de fontes. Já vários alunos da Faculdade de Música
do Instituto Musical de São Paulo estão pesquisando, sob a minha
orientação, o histórico e o presente de bandas de bairros da capital
e outras cidades de São Paulo.
Gostaria de salientar, para finalizar, a questão metodológica.
Precisamos, a meu ver, proceder de duas formas, como se percorressemos
um túnel por dois lados: uma de trás para a frente, levantando
os arquivos, as notícias em jornais etc., outra da frente para
trás, através da entrevista com músicos e apreciadores do presente,
como o demonstramos hoje. Do ponto de vista político-cultural,
este último método é de fundamental relevância.
O apoio e o fomento da iniciativa particular, no caso dessas corporações,
devem servir à memória histórica das comunidades de cidades e
regiões, pois é ela que dá sentido à própria prática musical.
Como vimos, por todo o lugar há profundas relações familiares
e de "parentesco espiritual", através dos elos entre mestres e
discípulos, que garantem a continuidade dos esforços. Devemos
tudo fazer para impedir que essa prática se torne anônima, ou
seja, que perca a ligação com a própria tradição histórica nos
diversos locais e regiões. Seria lamentável se, através de algum
programa de incentivo, se destribuísse, por exemplo, um rol de
composições por todas as bandas do país. Isso traria uma triste
unificação dos repertórios.
Não há nenhum interesse cultural apoiar a prática de música de
banda atual em si e por si, independente do seu valor sócio-cultural
local e regional, porque isso seria um anacronismo. Seria abusar
das bandas civís como mero celeiro de futuros instrumentistas
de sopro para bandas militares ou orquestras. Há, porém, muitíssimo
interesse em apoiar a consciência histórica e comunitária das
cidades e regionais, pois é ela que dá vida, fisionomia e personalidade
às comunidades. Quando se faz concursos de bandas, por exemplo,
não se deveria apenas avaliar a execução, mas sobretudo a inclusão
prioritária de obras de autores próprios, do passado ou do presente.
Subvenções governamentais a este tipo de iniciativa particular
deveriam, a meu ver, serem guiadas por este princípio. E aqui
o comércio desempenha um papel relevante, porque a unificação
ou não do repertório se relaciona com a edição e a venda de partituras.
Não se trata, nesta minha proposta, de provincializarmos o repertório
das várias bandas, mas sim de mantermos os vínculos com a sua
formação histórica nos respectivos locais e regiões. Os trabalhos
dos mestres deveriam vir a ser colocados às mãos nas áreas onde
atuaram ou estiveram presentes na memória daqueles que com eles
estudaram. Em outras regiões, precisariam ser apresentados por
meio de estudos que acompanhariam as partituras. Isso não traria
uma uniformização, mas sim uma integração consciente. E aqui teríamos
novas possibilidades para o comércio editorial no Brasil.
Espero ter, assim, deixado claro o valor prático da pesquisa musical
e a necessidade de que as iniciativas de apoio e fomento, quer
governamentais, quer particulares, serem nela fundamentadas e
justificadas.
Conferência no Centro Social "Mário França de Azevedo" do Serviço
Social do Comércio, em 5 de junho de 1973. Baseada nos trabalhos
realizados em 1971/72. BrasilEuropa &Musicologia, ed. H. Hülskath.
Akademie BrasilEuropa/ISMPS 1999.
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