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Nomes da história intercultural em contextos euro-brasileiros
Frederico José de Santa-Anna Nery (1848-1901)
Barão de Santa-Anna Nery
Antonio Alexandre Bispo
Nasceu em Belém do Pará, em 1848. Realizou seus primeiros estudos em Belém, sendo marcado na sua formação pela intensa vida religiosa da cidade. Foi influenciado e apoiado por D. Antonio de Macedo Costa, bispo do Pará. Fêz estudos no Seminário de Manaus e, a partir de 1862, em S. Sulpice, em Paris. Em 1867, formou-se em letras, seguindo para Roma no ano seguinte. Doutorou-se em Direito, em Roma, em 1870. Assumiu a redação da revista católica La Esperanza. Em 1871, publicou, em Florença, o livre Les Finances Pontificales. Em 1872, separou-se dos "velhos católicos", do círculo de J. Loyson. No mesmo ano, publicou o livro La Logique du coeur, traduzido em várias línguas. Em 1873, lançou, em Roma, o Le Prisonnier du Vatican.
A partir de 1874, viveu em Paris. Manteve estreitos contactos
com o Brasil, como colaborador do Jornal do Comércio, do Rio de Janeiro. Em 1875, publicou Un Poète du XIX siècle: Gonçalves Dias, contribuindo grandemente para a difusão da literatura brasileira
na Europa. Iniciou intensa atividade de divulgação cultural do
Brasil e da língua portuguesa no contexto das comemorações do
Tricentenário de Camões. Publicou, em 1879, o livro Camões et son siècle. Foi um dos fundadores da Associação Literária Internacional, representando-a como vice-presidente em congresso internacional
em Londres. Em 1880, publicou Lettre sur le Brésil: réponse au Times, e pronunciou discurso na sessão inaugural do Congresso Literário Internacional de Paris. Em 1881, lançou a publicação mensal Le Brésil. Já integrado e reconhecido nos meios literários da França, atuou
na publicação do Almanak Parisienne. Em 1883, após viagens ao Brasil, publicou, em Paris, La question du café e La Bataille du Riachuelo.
Em 1884, publicou La Civilisation dans Amazones. Fundou a Sociedade Internacional de Estudos Brasileiros, organização renovada atualmente pela Academia Brasil-Europa,
e a Revue du Monde Latin. No ano seguinte, dedicou-se, no Pará, à fundação de uma sociedade
paraense de imigração. Em Paris, nesse ano de 1885, publicou a
primeira edição de Le Pays des Amazones (Paris: L. Finzine), obra que conheceu versões em outras línguas
e marcou profundamente a imagem do Amazonas na Europa na passagem
do século (Il paese delle Amazzoni, Genova 1900; The Land of the Amazon, Londres 1901). A obra, inserida na série Bibliothèque des Deux-Mondes,ornada de 101 ilustrações e de 2 mapas, com um retrato do autor
gravado em água-forte por Robert Kemp, com introduções do Barão
de Hübner e de Émili Levasseur, foi financiada por meio de subscrição
da Assembléia Legislativa do Amazonas.
Dedicou-se ao fomento da emigração européia ao Pará. Em 1887,
proferiu discurso sobre o povoamento da Amazônia na Sociedade
de Geografia do Rio de Janeiro. No ano seguinte, foi um dos membros
fundadores da Sociedade de Tradições Populares, em Paris. Vários trabalhos seus foram publicados em 1889, devendo-se
salientar o Le Brésil en 1889, para a Exposição Universal de Paris, e o Folk-lore brésilien (Paris: Didier, Perrin), o tratado inaugural dos estudos de folclore
brasileiro na Europa.
Pelas suas atividades como leal ao sistema constitucional após o golpe militar que levou à proclamação da República no Brasil (1889) foi preso (1897) e desterrado para a ilha Fernando de Noronha, em 1898. As suas experiências as descreveu em De Paris a Fernando de Noronha, publicado em Lisboa, em 1897. Em 1900, escreveu a Bibliografia Scientifica sobre o Amazonas, introdução ao álbum O Pará em 1900, comemorativo dos 400 anos do Brasil.

[Excertos de trabalhos da A.B.E.]
F. -J. de Santa-Anna Nery (1848-1901)
Estudos culturais amazônicos e estudos culturais brasileiros na
Europa no século XIX
1976, Encontro "Europeus no Amazonas", Paris. Apresentado em trabalhos
desenvolvidos no Vaticano
Texto simplificado para a discussão durante o primeiro Forum BRASIL-EUROPA
de Leichlingen, 1982, organizado por A.A.Bispo e realizado sob
o patrocínio da Embaixada do Brasil na Alemanha
Principais datas dos estudos dedicados a F. -J. de Santa-Anna
Nery no âmbito da A.B.E. 1984. 100 anos da fundação da Sociedade de Estudos Brasileiros
e da Revista Mundo Latino. Abadia de Royaumont 1998. 150 anos de nascimento. Música no Encontro de Culturas.
Universidade de Colonia 2001. 100 anos de falecimento. Triênio de estudos euro-brasileiros
pelos 500 anos do Brasil. A.B.E. F.-J. de Santa-Anna Nery. Le Pays des Amazones. L'El-Dorado. Les
Terres a Caoutchouc par (...). Paris: Bibliothèque des Deux-Mondes:
L. Frinzine et Cie, 1885 F.-J. de Santa-Anna Nery. Folclore brasileiro: poesia popular
- contos e lendas - fábulas e mitos - poesia, música, danças e
crenças dos índios (...). Tradução, apresentação, cronologia e
notas adicionais de Vicente Salles, 2a. ed. Recife: FUNDAJ, Massangana,
1992 Bispo, Antonio Alexandre. "Katholische Restauration und Musikkultur
der Indianer Amazoniens". Die Musikkulturen der Indianer Brasiliens:
Stand und Aufgaben der Forschung IV. Zur Geschichte der Forschung.
Anuário Musices Aptatio 2000/1, Roma/Siegburg 2001, 277-286
Antonio Alexandre Bispo
1976. 75 de falecimento. Jornadas de estudos Brasil-França, Paris.
Início do programa "Europeus no Amazonas" sob a direção de A.A.Bispo.
Apresentado no âmbito de trabalhos realizados no Vaticano, Museu
de Etnologia.
1981. 80 anos de falecimento. Museu do Índio, Manaus e I° Simpósio
Música Sacra e Cultura Brasileira, S. Paulo e Petrópolis
1982. I° Forum Brasil-Europa, Leichlingen
1989. 100 anos de Le Folklore brésilien. I° Colóquio de estudos
euro-brasileiros. Bonn e Colonia
Indicações bibliográficas:
F.-J. de Santa-Anna Nery. Folk-Lore Brésilien. Poèsie populaire.
- Contes et légendes - Fables et mythes. - Poésie, musique, danses
et croyances des indiens. Accompagné de douze morceaux de musique.
Préface du Prince Roland Bonaparte. Paris: Librairie académique
Didier, Perrin, 1889
Bittencourt, Agnello. Dicionário amazonense de biografias. Vultos
do passado. Rio de Janeiro: Conquista, 1973
Borges, Ricardo. Vultos notáveis do Pará. Belém: CEC, 1980
Entre as obras insuficientemente consideradas da bibliografia
de relevância científico-cultural e musicológica do século XIX
referentes ao Brasil encontram-se as do paraense Frederico José
de Santa-Anna Nery (1848-1901). Aspirante ao sacerdócio, com boa
formação musical, após ter passado anos de infância em Belém e
realizado os seus primeiros estudos no Seminário de Manaus, partiu
para a Europa, em 1862, com o objetivo de concluir os seus estudos
nos principais centros religiosos e culturais do Velho Mundo.
Na época de ardor restaurativo do Catolicismo, que tinha no Bispo
do Pará, D. Antonio de Macedo Costa, ex-aluno de Saint-Sulpice
em Paris e da Academia de S. Apolinário de Roma, um dos seus principais
representantes no Brasil, a Igreja procurava criar uma nova geração
de sacerdotes de acordo com o espírito reformador que impregnava
alguns seminários europeus, entre eles o de Saint-Sulpice.
Embora F.-J. de Santa-Anna Nery não fosse ordenado, muito se empenhou
no movimento católico da época do Syllabus e do Concílio Vaticano I. Doutorou-se em Direito pela Universidade
de Roma, em 1870; foi redator da revista católica La Esperanza, afastando-se, em 1872, dos círculos influenciados pelo Père
Hyacinthe Loyson (1827-1912), de Saint-Sulpice, Professor de Filosofia
e Dogmática. Separando-se publicamente dos "velhos católicos",
expôs as suas convicções no livro La Logique du coeur, publicado no mesmo ano de 1872 e traduzido em várias línguas.
Após ter escrito Le Prisonnier du Vatican (1873) e Les Finances Pontificales, a Santa Sé outorgou-lhe o
título de barão.
A partir de 1874, tendo-se estabelecido em Paris, F.-J. de Santa-Anna
Nery tornou-se um dos principais divulgadores da cultura brasileira
e defensores das causas do Brasil na Europa. As suas concepções
e a sua imagem do Brasil foram, naturalmente, profundamente influenciadas
pelas tendências e correntes do meio intelectual e científico
francês. Sobretudo o desenvolvimento que então experimentava o
estudo das tradições populares e do folclore, assim como o grande
interesse dos europeus pelos indígenas americanos levaram-no a
ver o seu país natal com outros olhos. Exerceu, por sua vez, considerável
influência no desenvolvimento dos estudos das tradições populares
na França, tais como deenvolvidos por P. Sébillot, sendo pioneiro
sob determinados aspectos.
A literatura do Brasil, em especial aquela de cunho indigenista,
passou a ter em Santa-Anna Nery um grande propagador através de
publicações e conferências em instituições e congressos internacionais.
Assim, em 1875, publicou em Paris a antologia Un Poète du XIX siècle: Gonçalves Dias, a 7 de setembro de 1881, lançou a revista Le Brésil e, em 1884, fundou a Sociedade Internacional de Estudos Brasileiros e o periódico Revue du Monde Latin. A Academia Brasil-Europa, a partir de encontro realizado em
Paris, em 1976, dedica-se ao prosseguimento desses ideais.
(...)
Catequese indígena e restauração católica
Santa-Anna Nery, que tinha seguido de perto as discussões relativas
à missão e à catequese no mundo não-europeu na época do Concílio
Vaticano I, permaneceu em contacto com missionários que atuavam
no Brasil. Em 1882, prefaciou o relato de viagens de título Le Pays du café, do Pe. T. Durand, um missionário francês que trabalhou na Amazônia.
Passou a colecionar outros escritos desse missionário, publicando-os
mais tarde em forma de coletânea (Aux États Unis du Brésil, 1898).
Digno de nota é o fato de Santa-Anna Nery ter deixado registrado
um singular projeto de catequese indígena desenvolvido pelo movimento
de restauração católica da Amazônia. Em 21 de março de 1883, em
conferência proferida no palácio da Assembléia Provincial do Amazonas,
D. Macedo Costa expôs o seu plano de construção de um navio apostólico
para a ação pastoral e missionária fluvial da região. Denominado
de "Christophoro", esse navio seria um templo flutuante, artisticamente
construído por especialistas europeus e que percorreria o Amazonas
com um grupo de sacerdotes de sólida formação para a pastoral
das populações ribeirinhas e para a catequese indígena. A música
sacra a ser cultivada nesse templo deveria estar naturalmente
de acordo com os ideais restauradores. Assim, para as celebrações,
o navio-igreja possuiria um órgão, instrumento pouco encontrado
nas igrejas e capelas da região, representando uma singular atração
para os habitantes de povoações menores e para os índios. Assim,
o órgão deveria vir a ser um agente da cura de almas e da reforma
das expressões da religiosidade e do trabalho missionário.

Imigração européia e colonização do Amazonas
É sob este pano de fundo que deve ser considerado também o empenho
de Santa-Anna Nery por questões relacionadas com a imigração ao
Brasil e com o povoamento da Amazonia. Assim, já em 1885, Santa-Anna
Nery lançava, em Belém, o projeto de fundação da Sociedade Paraense de Imigração.
Esse ano de 1885 foi marcado por duas ações de grande relevância
para os estudos relacionados com o Brasil na Europa: a publicação
do Le Pays des Amazones e a realização de uma conferência sobre poesia popular brasileira
no Instituto Rudy. Essa palestra viria a constituir o fundamento
do primeiro livro sistemático dedicado ao folclore brasileiro
a ser publicado na Europa e no qual o seu autor daria também particular
atenção à cultura indígena.
(...)
Estudos brasileiros e apologia da Amazônia
Importância particularmente relevante para os estudos culturais assume a publicação Le Pays des Amazones, LEl-dorado, Les Terres a Caoutchouc, impresso em Paris, em 1885.
O próprio Santa-Anna Nery salienta o significado da sua obra como
produto da experiência de um autor nascido na região e que esteve
em condições de estudá-la na sua "harmoniosa unidade". Também
a cultura indígena surge, assim, integrada nessa unidade que o
autor percebia existir na Amazônia. Aliás, um dos grandes problemas
da literatura dedicada ao Amazonas residiria justamente na consideração
isolada dos vários aspectos da realidade regional. A diversidade
de enfoques causada pela formação e pela visão particular dos
vários viajantes e estudiosos levara à formação de um quadro de
elementos desintegrados, caracterizado apenas pela multiplicidade,
não pela necessária unidade na diversidade e diversidade na unidade:
"La plupart des auteurs qui ont composé des livre sur lAmazonie
se trouvent dans ce cas. Le savant nenregistre que certaines
particularités de la flore ou de la faune; le géographe ne relève
que des données topographiques; le trafiquant nest attentif quaux
phénomènes de la production; lhomme de lettres se contente dexploiter
le pittoresque en vue de ses descriptions. Aucun deux nétudie
le pays dans son entier, dans son harmonieuse unité". (op.cit.
XIV)

O livro é aberto por uma carta do Barão de Hübner, que já havia
estado no Brasil e que salienta a oportunidade da publicação numa
época em que o Brasil, tentando transformar o seu trabalho nacional,
procurava o braço, o espírito empreendedor e os capitais do Velho
Mundo. O prefácio de E. Levasseur salienta a relevância do livro
para o estreitamento dos velhos laços existentes entre o Brasil
e a França. A publicação era situada na atualidade do conflito
franco-germânico da época: o próprio autor pergunta-se se Bismarck,
percorrendo o grande rio brasileiro, não se envergonharia do seu
córrego brandeburguês (!).
Um dos objetivos de Santa-Anna Nery foi o de divulgar a idéia
de estabelecimento de um museu amazônico em Paris como um centro
de estudos para cientistas e artistas, além de um estimulante
à emigração. Apesar da manifesta função apologética da publicação,
o trabalho encerra valiosos dados etnográficos - também pela inclusão
de mapa preparado por Raymundo A. Nery e Benardo Ramos.
Nous voulons que l'on sache un peu partout en Europe, où nous demeurons, ce que nous sommes et à quoi nous employons notre intelligence et nos bras. Nous voulons apprendre à nos amis de France ce qui se passe aux frontières de leur Guyane, quels trésors sont ouverts à leur travail et à leur activité, s'ils consentent à unir leur forces à nos forces, leurs capitaux à nos capitaux pour exploiter le sol amazonien et partager pacifiquement avec nous le climat glorieux dont parle avec envie l'Anglais Bates.
Après La Condamine et Humboldt, après Castelnau et Agassiz, après Coutinho et Barboza-Rodrigues, après Creveaux, Wiener et tant d'autres, il reste à dire en un seul volume ce qu'ils ont mis en plusieurs; il reste à susciter des énergies, à enflammer des courages; il reste à imprimer la résolution de voir et de coloniser le plus beau, le plus riche, le plus fertile pays du monde, le pays du caoutchouc, l'El-Dorado légendaire, les terres vierges qui attendent la semence de la civilisation. (op.cit. XV-XVI)
Expressões culturais e religiosas do Amazonas: Sairé
Atenção particular merece a segunda parte da obra, com menção
aos costumes e usos, onde o autor indica a existência de semelhanças
entre as tradições européias da Amazônia e aquelas da França.
Dá atenção sobretudo à mistura do sagrado e do profano nas festas
de Santo Antonio, São João e São Pedro. Essas festas seriam de
origem ariana e o culto de Agni, o fogo criador, estaria associado
àqueles santos venerados no mês do solstício. Tradições realmente
originais se encontrariam no povo propriamente dito da Amazônia,
ou seja, entre os descendentes dos indígenas, que cultivariam
um catolicismo mesclado de fetichismo. Aqui, as festas e as cerimônias
cristãs seriam mais corrupções ou, melhor, desenvolvimentos de
antigos usos pagãos.
Segundo o autor, sobretudo a festa do "sairé", embora grotesca,
representaria um resumo alegórico de profundo conteúdo simbólico
dos principais pontos do dogma católico. A descrição pormenorizada
do sairé representa o ponto de maior interesse da obra de Santa-Anna
Nery para a pesquisa musical. Ela é baseada em estudo de M. Barbosa
Rodrigues e encontra-se no capítulo IX da obra de Santa-Anna Nery,
dedicado ao culto e aos ritos religiosos. Ao lado de Barbosa Rodrigues,
Santa-Anna Nery baseia-se, quanto aos mitos que considera, por
exemplo quanto à serpente de fogo Mboitatá, protetora da floresta,
em estudo do americanista José Verissimo de Matttos de título
"A Religião dos Tupys- Guaranys", publicado na Revista Brazileira.
Do sairé, o autor guardava lembrança viva da sua infância. Segundo
ele, tal tradição poderia ser explicada mais pelas teorias que
supunham a permanência de remotos substratos da cultura do que
pela doutrina católica, uma vez que pouco se coadunava com a severidade
das solenidades da Igreja.
O sairé é descrito por Santa-Anna Nery como sendo a designação
de um semi-círculo de madeira, de um metro e quarenta centímetros
de diâmetro. Nesse semi-círculo, inscrevem-se dois outros semi-círculos
menores, que se tangenciam e que repousam suas extremidades sobre
o grande diâmetro. O autor comparou essa estrutura sólida com
uma janela romana geminada. Do ponto de tangência dos dois semi-círculos
se eleva, perpendicularmente ao diâmetro do grande semi-círculo,
um raio que ultrapassa a circunferência e que termina por uma
cruz. Os dois semi-círculos menores têm também os seus raios perpendiculares
ao diâmetro e são ornados igualmente por uma cruz. Esses arcos
são envoltos de algodão desfiado e deles pendem pequenos vidros,
doces e frutas.
Toda a narrativa bíblica do Dilúvio estaria contida nessa representação
simbólica. O grande círculo representaria a arca de Noé, os pequenos
vidros significariam a luz do dia, os doces e os frutos significariam
a abundância que reinava na arca; o algodão e o tamborim representariam
a espuma e o ruído das ondas do dilúvio; o movimento que se imprimiria
ao sairé lembraria o balanço da arca sobre as águas. Os três círculos
representariam ainda as três pessoas da Trindade e as três cruzes
seriam a imagem do Calvário.
Quando os índios já catequizados festejavam algum santo, colocavam
o sairé ao pé do altar. Levantavam um telhado de palha em frente
da casa, colocavam mesas e todos se preparavam para a dança e
para os festins. No dia da festa, transportava-se o sairé da casa
para a igreja. A ordem da procissão era a seguinte: à frente,
um índio carregava a bandeira, na qual estava representado o santo
venerado. Em seguida, vinha o "sacrossanto" sairé. Três velhas
índias, vestidas com os seus melhores trajes, o seguravam no ar
pelo diâmetro. Uma jovem balançava o grande cordão do sairé, enquanto
que, a seu lado, uma companheira agitava o tamborim sagrado, enfeitado
de fitas de cores vivas. Seguia-se o cortejo das mulheres, e os
homens fechavam a procissão. Durante o trajeto, em intervalos
regulares, as velhas índias pendiam o sairé para a frente e para
trás, dando-lhe um movimento circular expressivo. Durante todo
o tempo, a jovem com o tamborim tocava e dançava, de acordo com
o rítmo da voz e dos cantos. A melodia era triste e monótona.
As palavras eram ingênuas e impregnadas de esperança da vida futura.
O refrão era em português, a antífona, em tupi. Diziam: "Jesus
foi batizado nas pias batismais de pedra", e o coro respondia:
"E Jesus e Santa Maria", "Santa Maria é uma mulher bela, seu filho
é como ela, ele está nos altos céus, sobre uma grande cruz, para
guardar as almas". (Santa Maria, cunãn puránga, imembóira iauérá iuaté pupé, oicou
curussá uassú pupé, ianga turama rerassú") O coro repetia: "E Jesus e Santa Maria".
(...)
Artes, ciências, música e danças indígenas
Atenção deve ser dada também ao capítulo VII da obra de Santa-Anna Nery, dedicado às artes e às ciências, pois contém um ítem especial a respeito da música e da dança dos índios. O autor resume as opiniões de M.J. Barbosa Rodrigues. A argumentação a respeito da natureza triste do índio baseia-se na morna tristeza do ambiente natural, em cuja grandeza o homem se sentiria demasiadamente pequeno. Assim, os cantos e danças indígenas seriam lúgubres para o observador.
Também o tapuio, o índio vencido, exprimiria na música e nas danças
as suas dores e o seu desespêro. Tanto nos cantos guerreiros como
nos cantos festivos, os índios chorariam o passado, lamentando
a liberdade perdida. Haveria, porém, notas vibrantes e heróicas
que rememorariam os prodígios dos velhos guerreiros. Em geral,
porém, os indígenas não conheceriam os arroubos alegres, apenas
o delírio provocado pelo álcool. Esses arroubos representariam
uma espécie de frenesia onde se misturavam as convulsões da dança
e os grotescos cantos. O autor salienta os tabus relacionados
com as mulheres, não admitidas às porassés masculinas. Só os homens
seriam yerokiáras, os guerreiros-dançarinos. Todos os sofrimentos
da vida, os feitos dos ancestrais, as marchas forçadas, as lutas,
as perseguições, o cativo, tudo isso seriam assuntos a serem representados
nas danças mímicas.
As mulheres possuiriamm o seu neengara, a sua canção patriótica
selvagem, na qual transmitia-se o marandyba, a história das grandes
guerras. A "bacanal feminina" seria muito enérgica.
Os índios acompanhavam freqüentemente as suas danças e cantos
com instrumentos de música. Esses instrumentos podiam ser classificados
em instrumentos de festa e em instrumentos de guerra. Conheciam
apenas instrumentos de sôpro e de percussão. Todos os instrumentos
de música marcial seriam de sôpro. Entre os instrumentos de festa,
em geral de percussão, encontrar-se-iam alguns de sôpro, munidos
de uma embocadura especial. Todos esses instrumentos se subdividiriam
em mymbys, torés e maracás.
O principal instrumento de guerra seria o mymby-tarara ou trompete
dos Tupi, que tomaria diferentes nomes, de acordo com a tribo.
É descrito como sendo uma espécie de trompa que, tocada como flauta
transversal, horizontalmente, era feita de madeira forte e pesada
de massarandiba. Ele daria um clangor agudo e duro. Consistiria
em dois pedaços de madeira colados e cobertos de mechas de algodão,
penas e uma grande variedade de ornamentos. Os valores de duração
utilizados seriam em geral curtos.
Os torés serviriam sobretudo para a dança. Haveria dois tipos:
o ken e o ufua, com a mesma forma mas diâmetro diverso. Eram feitos
de taquára-assú e produziam sons roucos e lúgubres.
Os maracás descritos por Santa-Anna Nery eram feitos de cabaça
pintada de negro e enfeitada com desenhos. Outros maracás pareciam
ser grandes cabeças, feitas do fruto seco da Thevetia variifolia.
Muitas vezes os índios traziam os seus maracás presos à cintura.
O autor salienta um instrumento que era para ele muito melodioso
e feio, o famoso chicuta dos índios Pariquys do Jatapú, afluente
do Uatumá. O chicuta era feito de Yriartea setigera (Martius).
Tocavam-se dois chicutas simultâneamente: um produzia sons graves,
o outro, agudos. Os chicutas mediam de seis centímetros a um metro
de comprimento. Ao som desse instrumento, os Pariquys executavam
a sua dança mais original, a dança dos animais. Os participantes
deviam reproduzir nos cantos os gritos dos animais e imitar os
seus gestos, tais como a serpente sucuriú e o tamaquaré. Essas
danças bizarras só poderiam ser comparadas com as danças do Jurupary
dos índios Uaupés, praticadas ao som de uma dúzia de torés. Os
instrumentos eram considerados sagrados e não podiam ser vistos
por mulheres.
Entre as ilustrações da obra de Santa-Anna Nery, deve-se salientar
a intitulada "torès", com instrumentos musicais, a de um "trompette
indienne", a de título "mimby", com instrumentos musicais, e as
gravuras de um maracá e de um cotecá, todas elas reproduzindo
desenhos da Revista da Exposição Anthropologica Brazileira (Rio de Janeiro, 1882); um instrumento musical aparece também
na gravura de um missionário junto aos índios, baseada em fotografia
original.
Para Santa-Anna Nery, entre os povos jovens, os gritos e a dança
viriam de encontro à pobreza do idioma, emprestando-lhe seus recursos
expressivos. Essa concepção fundamentava por meio da analogia
da idade das nações com a do ser humano. À medida que as nações
envelheceriam e conquistassem a calma da experiência, os músculos
tenderiam ao repouso; o corpo tornar-se-ia mais sóbrio, já não
tendo tantas demonstrações violentas; o discurso ganharia em recursos,
as sensações se transformariam em sentimentos e os pensamentos
tornar-se-iam mais refinados. A civilização excessiva levaria
porém que os corações se tornassem impassíveis, as cabeças frias
e os membros rígidos. Esse fenômeno poderia ser estudado entre
os índios que já tinham entrado em contacto com a civilização
dos brancos. Tanto na dança como na religião teria ocorrido apenas
uma adaptação dos costumes estranhos. As danças teriam permanecido,
só a sua "petulância" fora modificada. O autor cita, como exemplo,
uma descrição de Agassiz da coreografia moderna dos índios do
Amazonas.

Primeiro livro de Folclore Brasileiro publicado na Europa
Em 1889. Santa-Anna Nery publicou, em Paris, Folk-Lore brésilien, com prefácio do Príncipe Roland Bonaparte, de renome pelos seus
conhecimentos de assuntos antropológicos e etnográficos. Baseado
em conferência pronunciada quatro anos antes, o livro foi motivado
pela fundação, em Paris, da Sociedade de Tradições Populares,
para cujo quadro social o autor fora convidado. Nesta obra de
divulgação, sem propósitos científicos ou documentais, o autor
dedica uma parte à poesia, música, danças e crenças indígenas.
Em capítulo especial, trata da música e dos instrumentos musicais,
entrando em pormenores a respeito da dança do Sucuriju, da dança
do Tamaquaré, da festa do Jurupari, da música no processo de iniciação
dos pajés e da dança do sapo.
Essa obra assume particular interesse para os estudos musicológicos
sobretudo devido às doze peças musicais nela incluídas, sendo
uma delas um canto indígena. Na anotação desses exemplos, o autor
teve a colaboração do pianista e compositor brasileiro Brasílio
Itiberê da Cunha (1846-1894), amigo de Franz Liszt e Anton Rubinstein.
Em viagens que realizou ao Brasil em 1882, 1885 e 1887, o autor
coletou grande quantidade de novos materiais e documentos. Santa-Anna
Nery formou uma coleção de instrumentos musicais, entre eles caracaxás,
- descrito como cilindro oco de bambu raspado com um pedaço de
pau -, numerosos maracás, membis ou flautas feitas de tíbias de
animais.
No seu prefácio, Roland Bonaparte procura justificar o excepcional
pêso dado aos indígenas na obra:
"À primeira vista, estaria tentado a reprovar-lhe haver dado espaço
tão largo às tradições de origem indígena. Mas sabe-se hoje qual
a importância que se dá a este ramo da mitologia. Andrew Lang
e seus discípulos, com efeito, supõem que o elemento irracional
contido nos mitos é tão-somente a sobrevivência dum estado do
pensamento que foi outrora muito comum, para não dizer universal,
que só se encontra entre os selvagens e, até certo ponto, entre
as crianças".
Para o autor, os índios não seriam nem seres embrutecidos, sem
sombra de poesia, como o queria Saint-Hilaire, nem guerreiros
sublimes, como os via Gonçalves Dias. Como todos os oprimidos,
seriam profundamente tristes, dissimuladores e desconfiados, olhando
o branco sempre como traidor, evitando-o. Para vê-los tais quais
são, dever-se-ia passar como um dos seus. Então, eles se mostrariam
o que eram: generosos, prestativos, inteligentes, bravos e pensativos.
Eles convidariam então para suas poracés e mostrar-se-iam como yerokiaras, os dançarinos guerreiros, cuja mímica traduz a história da
tribo, seus triunfos e derrotas. Nessas festas, as mulheres não
seriam admitidas; as narrativas seriam simplesmente faladas ou
gesticuladas, às vezes dando-se a elas acompanhamento de instrumentos
musicais.
A imaginação representaria grande papel entre os indígenas, como
o demonstram suas concepções poéticas, seus sonhos melancólicos
e suas visões. Fato estranho para uma raça que se supunha saída
da barbárie ou de uma raça decaída da sua grandeza primitiva.
Santa-Anna Nery era antes a opinião de José de Alencar, segundo
o qual o tronco da raça americana seria o Adão da Bíblia, o homem
vermelho feito de argila. Esta não seria degeneração de outras,
mas, ao contrário, todas teriam uma origem comum e o Brasil seria
o berço da humanidade.
O autor considerou o uso de instrumentos musicais no contexto
de superstições de índios cristianizados. Uma delas seria o de
tocar uma espécie de trombeta de bambú para chamar o vento quando
navegavam. Estudou um grupo de indígenas cristão que perambulavam
angariando fundos para a festa de São Tomé, o apóstolo dos índios,
acompanhados ao som de tamborins ornados de fitas e caracaxás.
Considerou também a cantiga de ninar que envocava o macaco acutipuru,
e a sua variante civilizada, o Murucututu.
Apesar de toda a simpatia que demonstrava para o índio e sua cultura,
Santa-Anna Nery, certamente devido à sua formação de seminarista,
não escondia a sua aversão pelo pajé e pelos seus encantamentos.
Para ele, os pajés se ocupariam em semear corrupção, lançar os
primeiros gérmens da superstição e incentivar a luxúria. Eles
seriam responsáveis pela histeria de mulheres, que se manifestava
pelo grito acauã. Moralista, Santa-Anna Nery aproveitava essa
menção à histeria para criticar o lundum, perguntando se também
os "possuídos" do lundum não seriam histéricos.
Nas suas observações relativas às lendas populares e à interpretação
de assuntos bíblicos e de festas religiosas, Santa-Anna Nery baseava-se
nas publicações às quais tinha acesso e naquilo que ouvira da
tradição oral. Assim, reproduz dados relativos ao culto mariano
da Virgem da Nazaré e à crença que o seu desrespeito causaria
peste, de Antonio Pádua Carvalho, jornalista do Diário de Notícias.
Mencionou crenças relativas ao Tamandaré, o Noé indígena, e ao
Dilúvio, inspirado pela leitura de O Guarani de José de Alencar (Rio de Janeiro, 1868, 4a. edição). Ouviu
de índios catequizados a estoria de "Os marimbondos", uma narração
do pecado original que pesa sobre os homens, o que provaria a
influência do ensino dos primeiros missionários.
No estudo da cultura musical indígena, Santa-Anna Nery partia
fundamentalmente da linguagem. Na sua obra, reproduz trecho de
A. de Saint-Hilaire, que recolhera três pequenas canções dos Botocudos
do sul do Brasil e uma dos Macunés. Ouvira cantar pelos indios
do Amazonas uma canção entoada nas danças, respondida pelas mulheres.
Com base em fragmento gravado na memória, Santa-Anna Nery ofereceu
aos leitores o exemplo musical incluído na sua obra. Nas suas
considerações musicais, baseava-se também e sobretudo na obra
de Couto de Magalhães. Assim, reproduziu traduções desse autor
do canto de amor da filha da natureza, da invocação a Rudá, o
Deus do Amor. Também considerou os cantos bilingües coletados
por Couto de Magalhaes como prova da influência da poesia dos
brancos no espírito indígena.
Também nessa obra, Santa-Anna Nery salientou aquela que considerava
a mais original das danças indígenas: a dança dos animais dos
índios Pariquis (Parecis), executadas ao som de dois chicutás,
na qual os gritos, os gestos e o modo de andar dos animais eram
imitados, em particular as ondulações da cobra d'água, a sucuriju.
Santa-Anna Nery forneceu dados novos a respeito do mistério do
Jurupari com base em informações que recebera dos indios do Rio
Negro. Jurupari não seria simplesmente o diabo. O nome teria uma
significação muito mais ampla e variável. Parece que designara
primitivamente o guerreiro vencedor da tribo das Amazonas. De
um lado, surgia como um gênio do mal, um espectro; ao mesmo tempo,
designava um "paramento sagrado", uma vestimenta feita de fibras
da palmeira tururi ou de pele de macaco. O nome também surgia
na denominação de diversos instrumentos de música e, particularmente,
de uma espécie de longa trombeta feita de paxiúba, assim como
de uma festa onde figurava a máscara de pele de macaco: o Dabucuri.
De seus estudos, Santa-Anna Nery tirou conclusões que representavam
uma súmula de seu pensamento. As expressões culturais indígenas
seriam locais, apesar de possíveis aparências contrárias. Dever-se-ia
rejeitar a idéia de que tivessem vindo de outras culturas, nada
mais sendo do que empréstimos. O que haveria de comum entre as
tradições indígenas e aquelas de outras culturas seria a manifestação
de uma base comum da humanidade. Pois o que seria verdadeiro para
o pensamento individual o seria também para o coletivo. Colocados
em meios análogos, em circunstâncias idênticas, todos os povos
sonhariam da mesma maneira e dariam a seus sonhos a mesma forma
e expressões similares. A existência de semelhanças não significaria,
necessáriamente que estas representassem meras importações.
(...)
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