|
Academia Brasil-Europa© » português---------» deutsch---------» impressum---------» e-mail---------» Brasil-Europa.eu |
Nomes da história intercultural em contextos euro-brasileiros
MAX SCHMIDT (1874-1950)
AMADORISMO MUSICAL DE ETNÓLOGOS NA PESQUISA DE CAMPO
(1982)
Forum BRASIL-EUROPA de Leichlingen (1981/2)
sob o patrocínio da Embaixada do Brasil
Org. A.A.Bispo
Série preparatória da Semana Alemanha-Brasil
[Excertos de material, em tradução para o português]
Antonio Alexandre Bispo O presente texto, já antigo, oferece excertos de material que
foi destinado à discussão no âmbito do I° Forum Brasil-Europa
de Leichlingen, Alemanha, evento realizado sob a direção de A.A.Bispo
e sob o patrocínio da Embaixada do Brasil. É aqui publicado em
português com o objetivo de documentar os trabalhos realizados
no âmbito da Academia Brasil-Europa e institutos integrados. Não
reflete o estado atual dos conhecimentos, uma vez que os trabalhos
tiveram continuidade. 1998. Música no Encontro de Culturas. Universidade de Colonia.
Conferência e exposição na Academia Brasil-Europa 2002. Colóquio "Europa e o universo sonoro dos índios". A.B.E.
e Universidade de Colonia Indicações bibliográficas sumárias: Bispo, A. A. "Mitwirkung am indianischen Fest- und Alltagsleben:
Musik eines deutschen Völkerkundlers am Xingú". Die Musikkulturen
der Indianer Brasiliens: Stand und Aufgaben der Forschung IV:
Zur Geschichte der Forschung. Anuário Musices Aptatio 2000/1.
Roma/Siegburg 2001, 301-303
O seu objetivo foi preparar a Primeira Semana Alemanha-Brasil
realizada pela Escola de Música e pelo Departamento de Cultura
da Municipalidade de Leichlingen. Por esse motivo, aspectos etnomusicológicos
estiveram no centro das atenções. Discutiu-se, entre outros aspectos,
o questionável uso da música por pesquisadores que, eles próprios
músicos diletantes, procuram ganhar a simpatia de indígenas sem
considerarem os processos de transformação cultural que colocam
em ação. Com base em Max Schmidt, considerou-se criticamente antropólogos
atuais que apresentam tal procedimento positivamente como método
de aproximação.
Algumas datas do desenvolvimento de estudos relacionados com Fritz
Krause:
1992. II° Congresso Brasileiro de Musicologia. Preparação de Pesquisas
no Brasil-Central. Viagem ao Araguaia
1993. Sessão Preparatória no IBEM de viagens para estudos da cultura
karajá
1995. Cultura Karajá. Sessão em Maria Laach. Sob o patrocínio
da Embaixada do Brasil
Max Schmidt, Indianerstudien in Zentralbrasilien: Erlebnisse und
ethnologische Ergebnisse einer reise in den Jahren 1900-1901,
Berlin 1905, 404-424
Max Schmidt, Unter Indianern Südamerikas. Erlebnisse in Zentralbrasilien.
Berlin: Ullstein, s/d (Wege zum Wissen).
Max Schmidt, professor da Universidade de Berlim, publicou, em
1905, sob o título "Entre Índios da América do Sul: Experiências
no Brasil Central", o diário de uma viagem iniciada em outono
de 1900 às cabeceiras do Xingu. Essa região era considerada um
campo de trabalho ideal para pesquisas etnológicas.
Visitou os Bakairi do Rio Novo e, em 1901, algumas grupos do rio
Culiseu e os Guató do vale do Alto Paraguai. O relato da viagem
foi publicado sob o título "Estudos sobre índios no Brasil Central",
onde o autor trata de forma bastante pormenorizada das danças
e oferece textos de cantos dos grupos Auetö e Bakairi.
Partindo de Buenos Aires, o pesquisador subiu o rio Paraguai,
chegando a Cuiabá, onde montou a sua expedição. O cacique da aldeia
Bakairi era o mesmo Antonio que auxiliara ambas as expedições
de Karl von den Steinen, fazendo a viagem até o Pará e visitando,
no retorno, Paranatinga, Rio de Janeiro e Buenos Aires. Já em
1886, Antonio tinha estado com dois outros índios nas cabeceiras
do Xingú e realizara contatos. A sua autoridade era reconhecida
pelo próprio Presidente provincial do Mato Grosso, Antonio Correa
da Costa.
Música popular e trivial alemã no contato com indígenas
A primeira narração de interesse musicológico da obra de M. Schmidt
diz respeito à uma dança na aldeia Bakairi no Paranatinga. Numa
magnífica noite enluarada, homens e mulheres formaram filas. Ambas,
uma em frente da outra, movimentavam-se com danças e cantos, ritmicamente,
para frente e para trás, inicialmente em tempo moderado. A seguir,
segundo a descrição, o pesquisador tocou algumas melodias no violino
e Antonio dançou ao som do canto alemão "Ach, du lieber Augustin" e da valsa "Ist denn kein Stuhl da", uma peça que queria que fosse tocada o mais rápido possível.
No seu primeiro contacto com os Bakairi do Kulisehu, M. Schmidt,
após a saudação "kura Karaiba, kura Bakairi" ("o estrangeiro é bom, bom é o Bakairi"), executou a melodia
"Margareta, Mädchen ohnegleichen" ao violino, o que teria enternecido o coração dos indígenas.
Na aldeia dos Maikaieti não apenas executou ao violino como também
entoou essa canção, fato repetido com o próximo Bakairi econtrado,
e também com os Nahukuá , Mehinakú, Auetö e Trumai.
Entre os Mehinakú e os Auetö foi somente graças às melodias executadas
ao violino é que conseguiu desviar a atenção dos índios, pois
estes queriam ser presenteados com tudo que levava. Mesmo com
apenas duas cordas, M. Schmidt ainda tentou executar - e cantar
- a "Margareta".
Problemática tornou-se a situação, quando, rodeado de Mehinakú
e Trumaí, já não podia tocar violino, pois sentara-se em cima
do instrumento que deixara na rêde, destruindo-o.
Na aldeia Bakairi, as canções alemãs já conhecidas da sua primeira
estadia foram novamente entoadas no seu retorno. Além da "Margareta" e "Darapi", cantavam "Das Lied vom André", como chamavam o Lied "Schöne Wirtshäusle, ja die hab i an dre an der Zahl" por causa da semelhança das palavras "an dre" com o nome do seu acompanhante, André. Quando caiu doente, foi
constantemente visitado por crianças que cantavam, com voz límpida,
as palavras iniciais de "Margareta". Já não conseguindo executar essa canção que tanto o auxiliara
para apaziguar os Nahukuá, desviar a atenção dos Auetö e amansar
os Trumaí, tentou com o resto de suas forças, satisfazer o pedido
dos índios, cantando o Lied "Margareta, Mädchen ohnegleichen".
(...)
Canto indígena publicado na revista Globus
Uma das menções de interesse músico-cultural no relato de M. Schmidt
diz respeito a uma prática de canto de rapazes que, durante a
noite, entravam constantemente na sua cabana. Era, assim, perturbado
com um canto estridente sobre as palavras "kó kohohoho-hohó", que imitavam um pássaro. Os cantores batiam com os pés no chão
ao som do canto, a duas vozes. Este parecia, segundo Max Schmidt,
um canto alternado cujas vozes seriam entoadas simultâneamente.
A seguir, retiravam-se com o mesmo canto "kó kohohoho- hohó". Mesmo tentando proteger-se com uma coberta, era perturbardo
pelos cantores, que dele por demais se aproximavam fisicamente.
Essa dança dos dois ou três cantores, que entravam e saiam das
casas, teve prosseguimento durante toda a noite e no dia seguinte-
Segundo a informação que teve, o texto cantado relacionava-se
então com um convite para o trabalho na roça; os jovens e meninos,
formando uma fila, entravam e saiam cantando das casas.
O canto que entoavam ao receber os brindes, em posição curvada,
foi publicado pelo autor na revista Globus. Esse canto, intitulado "Huganotile", fala da juventude que é enviada ao trabalho, do seu mérito e
do pedido de mingau de mandioca, oferecido pelas mulheres aos
cantores. O grupo cantante saía assim para o trabalho numa roça
de propriedade do médico-feiticeiro. Este era o organizador das
festividades, dançando no caminho entre a aldeia e a clareira.
Instrumentos musicais. Pesquisador apodera-se de flauta
M. Schmidt cita a casa de dança da aldeia Auetö, descrevendo-a
como centro das danças e cantos dos homens. Tinha no centro um
tronco de árvore ôco que era batido com uma pesada clava para
a reunião da população masculina. Atrás do instrumento eram guardadas
as grandes máscaras; uma delas era semelhante às grandes máscaras
Bakairi, duas outras apresentavam porém novas formas, desconhecidas
entre os índios sul-americanos. Na cabana de festa eram guardadas
também grandes flautas que não podiam ser vistas pelas mulheres.
Quando elas eram usadas, com o seu som soturno, nas danças noturnas
no pátio entre as casas, fechavam todas as portas; por esse motivo
M. Schmidt explicava também a altura baixa da porta da casa das
festas.
Dos Nahukuá, que haviam levado, sem sua permissão quase todos
os presentes que havia trazido, M. Schmidt apoderou-se de uma
flauta de uma de suas canoas.
Participação no Cururu
Da sua estadia entre os Guató, M. Schmidt refere-se ao fato de
ter sido convidado para ser padrinho de batizado de uma criança,
oferecendo uma festa com a dança do Cururu. Os homens formaram
um círculo e começaram o Cururu, acompanhado pela música feita
pelo batizado e pelo próprio pesquisador, sendo que o primeiro
tocava, com "entusiasmo melancólico"mas ritmado, acordes na viola,
e M. Schmidt sacudia um caracachá feito para a ocasião. Os versos
cantados livremente referiam-se em parte às boas qualidades do
pesquisador, pedindo também que ele oferecesse a bebida para a
festa. O entusiasmo aumentou quando os instrumentistas entraram
na roda, dançando horas a fio. Durante os intervalos, o autor
executou valsas.
M. Schmidt procurou interpretar o significado do Cururu. Para ele, o seu sentido residia sobretudo na expressão dos sentimentos, na memória dos mortos, no agradecimento ao festeiro e no "louvor do Eros". Ao mesmo tempo, despertava nos participantes sentimentos de força e consciência de si, misturados com ressentimentos e inveja, levando a ações agressivas. Numa festa em Figueira, o próprio autor testemunhou que os versos improvisados do Cururu davam livre vazão a sentimentos. Enquanto cantara e participara da dança, tudo correra bem, pois fizera o possível para que os ânimos não se exaltassem.
(...)
O texto aqui publicado é apenas um das várias centenas de artigos
colocados à disposição pela Organização Brasil-Europa na Internet.
O sentido desses textos apenas pode ser entendido sob o pano de
fundo do escopo da entidade. Dessa página, o leitor poderá alcançar os demais ítens vinculados. Salientamos que a Organização Brasil-Europa é exclusivamente de
natureza científica, dedicada a estudos teóricos de processos
interculturais e a estudos culturais nas relações internacionais.
É a primeira do gênero, pioneira no seu escopo, independente,
não-governamental, sem elos políticos ou religiosos, não vinculada
a nenhuma fundação de partido político europeu ou brasileiro,
supra-universitária e originada de iniciativa brasileira. Foi
registrada em 1968, sendo continuamente atualizada.
Pedimos ao leitor, assim, que se oriente segundo a estrutura da
organização, visitando a página principal, de onde obterá uma
visão geral:
Para os trabalhos recentes e em andamento, recomenda-se que se
oriente segundo o índice da revista da organização:
Não deve ser confundida com outras instituições, publicações,
iniciativas de fundações ou outras páginas da Internet que passaram
a utilizar-se de denominações similares.
Prezado leitor: apoie-nos neste trabalho que é realizado sem interesse
financeiro por brasileiros e amigos do Brasil! Torne-se um dos
muitos milhares que nos últimos anos visitaram frequentemente
as nossas páginas. Entre em contato conosco e participe de nossos
trabalhos:
Todos os direitos são reservados. Cópias de textos e ilustrações,
ainda que parciais, apenas com permissão expressa da Academia
Brasil-Europa. Citações e referências devem conter indicação da
fonte.