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Nomes da história intercultural em contextos euro-brasileiros
Alfred Russel Wallace (1823-1913)
Nasceu em Usk, Monmouthshire, Grã-Bretanha, no dia 8 de janeiro
de 1823. Faleceu em Broadstone/Bournemouth, no dia 7 de novembro
de 1913. Uma das mais extraordinárias personalidades como pesquisador
de múltiplos interesses do século XIX. Injustamente esquecido,
vem sendo hoje gradativamente redescoberto no seu significado
nas várias áreas disciplinares (biologia, geografia, etnografia,
antropologia, geologia e outras). A A.B.E. empenha-se para que
seja reconhecido a sua importância para os estudos culturais,
em particular interculturais.
Tendo recebido apenas instrução escolar básica, formou-se sobretudo auto-didaticamente. Obras científicas, relatos de viagens, tratados de teologia e outros forneceram as bases dos seus conhecimentos e influenciaram as suas concepções. Realizou várias viagens de estudos e observações dentro da própria Inglaterra.
Desenvolveu viagens de pesquisas pelo Brasil entre 1835 e 1844.
Explorou o Amazonas e o Rio Negro de 1848 a 1852. Desenvolveu,
com H. W. Bates, a teoria do mimetismo. De 1854 a 1860, pesquisou
o arquipélago malaio. Teceu comparações entre o que observara
no Brasil e o que pesquisou nas ilhas malaias. Dividiu a terra
em regiões segundo a distribuição dos animais; mostrou que os
rios Amazonas e Negro constituem barreiras na distribuição dos
animais. A distinção entre Borneo, Sumatra e Java como pertencentes
à parte asiática e Celebe à australiana eternizou o seu nome ("Linha
Wallace"). Em 1858, apresentou a teoria da seleção natural na
luta pela sobrevivência, seguindo-se à qual Darwin publicaria
as suas próprias pesquisas. Em 1870, publicou as suas Contributions to the theory of natural selection, lançada em versão alemã, no mesmo ano, sob o título de Beiträge zur Theorie der natürlichen Züchtwahl. Em 1876, escreveu On the geographical distribution of animals, em 2 volumes. Por esse e outros trabalhos, é visto hoje como
um pioneiros da Biogeografia e mesmo da Ecologia.
Escreveu também textos sobre a evolução da humanidade, das raças,
tratou de questões etnográficas, de expressões da boca e de gestos,
da evolução das capacidades intelectuais e morais do homem e tentou
desenvolver uma teoria sobre a origem da linguagem. Foi socialista
e partidário da reforma agrária na Irlanda. Escreveu 22 livros
e mais de setecentos artigos. Recebeu numerosas medalhas e condecorações.
Foi nomeado doutor honoris causae pelas universidades de Dublin
e Oxford.
[Excertos de trabalhos]
Alfred Russel Wallace (1823-1913)
História Natural inglesa e os estudos músico-culturais do Amazonas
Texto para discussão com estudantes em colóquio do Forum BRASIL-EUROPA, Leichlingen, 1983, dirigido por A.A.Bispo e sob o patrocínio da Embaixada dos EUA
(Trechos traduzidos do alemão)
Antonio Alexandre Bispo O presente texto, já antigo, oferece excertos de uma conferência
realizada em 1981 no âmbito do I° Forum Brasil-Europa de Leichlingen,
Alemanha, evento realizado sob a direção de A.A.Bispo. É aqui
publicada em português com o objetivo de documentar os trabalhos
realizados no âmbito da Academia Brasil-Europa e institutos integrados.
Não reflete o estado atual dos conhecimentos, uma vez que os trabalhos
tiveram continuidade. 1975. Vestígios histórico-culturais anglo-brasileiros. Londres 1983. Pesquisadores de língua inglesa no Brasil. Semana Norte-Americana.
Forum Brasil-Europa. Leichlingen 1988. 75 anos de morte. Viagem de estudos. Inglaterra 1998. 175 anos de nascimento. Música no Encontro de Culturas.
Universidade de Colonia 2002. Europa e o universo sonoro dos índios. Colonia e Universidade
de Colonia. A.B.E. Alfred Russel Wallace. A narrative of travels of the Amazon and
rio Negro. New York: 1889 (2a. ed.) Alfred Russel Wallace. Viagens pelos rios Amazonas e Negro. Trad.
E. Amado. Belo Horizonte: Itatiaia/São Paulo: Universidade de
São Paulo, 1979 George, W. B. Biologist Philosopher: A study of the life and writings
of A. R. Wallace. Londres, 1964 Gheerbrant, Alain. The Amazon. Past, present and future. Paris.
Gallimard, 1988 Bispo, A. A. "Biologistische Philosophie bei der Betrachtung der
Musik Amazoniens". Die Musikkulturen der Indianer Brasiliens:
Stand und Aufgaben der Forschung IV: Zur Geschichte der Forschung.
Anuário Musices Aptatio 2000/1. Roma/Siegburg 2001, 178-188 Glaubrecht, Matthias. Die ganze Welt ist eine Insel. Beobachtungen
eines Evolutionsbiologen. Stuttgart: Hirzel, 2002 Glaubrecht, Matthias. Alfred Russel Wallace: Der ewige Zweite.
12/2002 GEO 133-156
Principais datas do desenvolvimento dos estudos culturais concernentes
a A. R. Wallace
Indicações bibliográficas:
De extraordinária importância para a história das ciências do
século XIX foram as viagens de observação e pesquisas de estudiosos
inglêses à Amazônia. O incremento dos interesses britânicos por
essa região da América do Sul foi determinada por expectativas
econômicas e pelas facilidades que os viajantes podiam contar
devido à presença de comerciantes e empresas inglêsas em Belém
e no interior do Amazonas. Os interesses políticos inglêses concentravam-se
naturalmente nas Guianas e nas regiões fronteiriças do Brasil
com essas regiões e com a Venezuela. Nada mais compreensível,
portanto, que o aporte dos viajantes inglêses digam respeito sobretudo
a essas regiões do Norte do Brasil, alcançadas através dos rios
Amazonas e Negro.
A história da etnologia das Guianas está estreitamente vinculada
com os irmãos Robert Hermann (1804-1865) e Richard Schomburgk
(1811-1891). Respectivamente diplomata e zoólogo, visitaram a
Guiana Inglêsa comissionados pela Royal Geographic Society de Londres. A obra Description of British Guiana foi publicada em 1840 por Robert Hermann. Richard Schomburgk,
que o acompanhara à Guiana e que seria, a partir de 1865, diretor
do Jardim Botânico de Adelaide, sintetizou os principais resultados
da viagem realizada entre 1840 e 1844.
Para o Brasil, os principais cientistas britânicos que devem ser
considerados são Alfred Russel Wallace, Henry Bates e Richard
Bruce.
O naturalista britânico Alfred Russel Wallace (...) ocupa um lugar
proeminente na história da observação e das idéias referentes
ao índio e à cultura da região. Apesar de ter a sua atenção dirigida
sobretudo à zoologia, deixou anotações de grande interesse para
os estudos culturais e que devem ser vistas dentro do contexto
das experiências e das convicções do autor como "biólogo-filósofo".
Com A.R. Wallace, a consideração culturológica e histórico-etnomusicológica
do Brasil inclui um dos mais renomados vultos das ciências naturais
do século XIX, uma vez que foi êle que estabeleceu, em 1858, a
teoria da seleção natural través da luta pela existência. Foi
essa teoria que levou a C. Darwin a publicar as suas próprias
pesquisas, apresentadas em comunicação sobre a origem das espécies
na Linnean Society. Wallace, que desenvolveu também, juntamente com H. W. Bates,
a teoria do mimetismo, ficou mundialmente conhecido pela sua divisão
da terra em regiões segundo a geografia animal (1876), e se tornou
um dos grandes divulgadores do Darwinismo.
A. R. Wallace explorou o Amazonas e o Rio Negro de 1848 a 1852,
viajando por regiões até então praticamente desconhecidas do Alto
Rio Negro e do Uaupés. A narrativa de sua estadia, que inclui
diversas referências a respeito da música, foi publicada primeiramente
em 1853. Foi após o seu regresso que passou a refletir mais sistematicamente
sobre o problema da origem das espécies, escrevendo, em 1855,
um ensaio sobre a lei que teria regulado a introdução de novas
espécies.
Pressupostos, imagem e realidade do Brasil
A vinda de A. R. Wallace ao Brasil foi motivada pelo seu desejo
de visitar uma região tropical para contemplar e estudar a exuberância
da vida animal e vegetal. O seu fascínio pela Amazônia foi despertado
pela leitura de um relato de viagens sobre o Amazonas (Edward,
A Voyage up the Amazon). O seu objetivo primordial era o de reunir coleções histórico-naturais.
Desde o início, porém, impressionado pela mistura racial, teve
o seu interesse dirigido ao estudo das raças humanas no seu relacionamento
com o meio ambiente.
Como relata no início de sua narrativa, teve inicialmente uma
grande decepção, causada pelo contraste da imagem que tinha feito
dos trópicos com base em descrições de viajantes que salientaram
aspectos de exuberância perante o desleixo e a decadência, apatia
e indolência da população. Essa impressão, porém, teria desaparecido
ao constatar que várias dessas características seriam decorrentes
das influências climáticas.

Impacto da música, canto de pássaros e natureza
Uma das primeiras marcantes impressões da sua estadia nos trópicos
diz respeito à cultura musical. Uma ou duas semanas depois da
sua chegada em Belém teve a oportunidade de assistir às novenas
das festas do Espírito Santo e da Trindade, uma comemorada na
catedral, outra em capela suburbana. A pompa das solenidades,
os espetáculos pirotécnicos, as procissões e as características
da organização das festas causaram em Wallace similares impressões
experimentadas por outros viajantes britânicos. Assim, salienta
na sua narrativa que música, barulho e foguetório seriam essenciais
para os brasileiros.
Wallace deixa entrever as concepções de natureza biologística
que tinha a respeito da música nas suas observações concernentes
ao canto dos pássaros. Com base nas suas observações, contesta
a generalizada convicção de que os pássaros dos trópicos teriam
uma pobreza canora proporcional ao esplendor de sua plumagem.
Muitos dos coloridos pássaros tropicais pertenciam, de fato, à
família ou grupos daqueles que não cantavam; entretanto, tendo
escutado gorjeios semelhantes aos do melro e do pintarroxo, chegou
à conclusão que os pássaros tropicais não eram menos musicais
do que os pássaros europeus de plumagem de cores vivas. Um canto
constituído de três ou quatro notas atraiu particularmente a sua
atenção, soando-lhe doce e melancólico; alguns dos pios podiam
até mesmo ser confundidos com palavras, por observadores de maior
fantasia; quebravam a silenciosa monotonia da selva e produziam
um agradável efeito.
Idéia da existência de princípios reguladores da variedade
As observações de Wallace no Brasil foram condicionadas pelo roteiro
de suas viagens. O seu caminho foi inicialmente condicionado pelas
oportunidades que lhe ofereceram cidadãos de língua inglêsa que
viviam e comerciavam na Amazônia. Assim, acompanhou, juntamente
com Bates um comerciante de madeiras canadense à procura de reservas
de cedro à beira do Tocantins. De retorno, visitou a ilha de Marajó,
onde um súdito inglês possuia uma fazenda de gado, ali realizando
estudos sobre as aves áquaticas.
Essas primeiras experiências estão intimamente vinculadas com
as idéias principais que caracterizariam a obra futura de Wallace.
Se até então os historiadores naturais teriam salientado o poder
de adaptação dos seres viventes aos alimentos e às peculiaridades
das localidades, chegara a hora, segundo êle, de se constatar
a necessária existência de uma série de princípios que regulavam
a variedade infinita das formas de vida animal, pois seria estranho
haver tantas aves e insetos pertencentes a diferentes grupos que
consumiam o mesmo alimento e conviviam nas mesmas localidades.
Diferenças musicais entre africanos e índios na ilha de Marajó
É sob esse pano de fundo que devem ser consideradas as observações
musicais feitas por Wallace na ilha de Marajó e que partiam de
um contraste que sentia existir entre a exuberância dos negros
e a apatia dos índios.
"Em Mexiaa, à noite, os negros ficam em seus casebres tocando
e cantando. Seu instrumento é uma espécie de viola primitiva,
da qual tiram apenas 3 ou 4 notas, repetindo-as horas a fio, na
mais enfadonha monotonia. Em cima dessa pobre melodia, improvisam
uma letra, geralmente relacionada com os acontecimentos daquele
dia. Os feitos dos brancos são os temas mais frequentes dessas
canções. Nas noites de sábado, os trabalhadores tomam parte nos
ofícios religiosos, realizados num comodo decorado à maneira de
capela." (Viagens pelos rios Amazonas e Negro, op.cit. 68)
Esses cantos faziam parte do ofício de vésperas. Todos participavam
com grande fervor, conquanto segundo Wallace não compreendiam
uma só palavra do que estavam respondendo.
(...)
Observação de cantos narrativos e esboços teóricos
Significativo é o relato de Wallace referente ao retorno de uma
família que ira a Chaves em Marajó à procura de um padre para
proceder ao batismo de uma criança. Naquela noite, cantando durante
três horas, narraram toda a história da infrutífera viagem, segundo
deduziu dos trechos que conseguiu compreender. Cada fato era transformado
num verso, que todos depois repetiam por diversas vezes. Assim
por exemplo, dizia o solista: "O padre estava doente e não podia vir (bis)", send repetido pelo coro. Depois a música continuou só com instrumentos,
enquanto ficavam tentando lembrar-se de algum fato que pudesse
ser transformado em refrão.
Wallace compara essa letra com as trovas dos antigos bardos, que
levavam a conhecimento do povo os fatos da época, transformando-os
em letras de música. Numa nação guerreira, acaso haveria algo
mais importante que o relato dos feitos de seus heróis a fim de
excitar ao máximo o entusiasmo? Alguns desses fatos, transmitidos
de geração em geração, teriam tendo a sua linguagem aperfeiçoada,
até que alguém se lembrasse um dia de escrevê-los, acrescentando-lhes
novas rimas e assim estruturando um poema épico.
(...)
Observações da escravidão no Brasil e idéias sobre a luta pela sobrevivência
Wallace tece considerações sobre a escravidão, argumentando também aqui segundo a tradição do pensamento inglês e que hoje surge como singular. Apesar de considerar a escravidão no Brasil como relativamente amena, questionava se seria correto conservar homens no estado de menoridade adulta e de despreocupada infantilidade. A responsabilidade e auto-determinação da idade adulta representariam elementos que suscitariam as mais excelsas demonstrações de força e energia. Seria a luta pela sobrevivência, a "batalha da vida" que exercitaria as faculdades morais e despertaria as latentes centelhas da genialidade. A infância seria a fase animal da existência humana, ao passo que a maioridade seria a intelectual.
(...)

Arte rupestre e observações de festas religiosas na região de Santarém
Wallace deixou Belém e arredores para ir a Santarém e Monte Alegre.
Teve a possibilidade de observar inscrições em grutas, compostas
de figuras diversas que representavam animais, jacarés e aves,
utensílios domésticos, círculos e outras figuras geométricas,
além de formas fantásticas e complexas. Em outras inscrições,
encontrou círculos concêntricos que, segundo os nativos, representavam
o Sol e a Lua, inscrições já conhecidas desde 1770.
Wallace presenciou uma festa religiosa em Monte Alegre. O povo
dançou e bebeu durante toda a noite e também no dia seguinte.
O índio que para ele trabalhava era um executante de violino muito
hábil. Após ter-se encontrado com Spruce, o botânico que chegara
de Belém, partiu para Obidos. Em Serpa, presenciou também uma
festa com procissão em torno da igreja. Atrás do padre vinham
mulheres e meninas ataviadas de fitas e flores, dançando animadamente,
de um modo que, para êle, nada tinha de religioso. À noite houve
baile.
(...)
Observações de interesse para a história cultural de Manaus
O relato de Wallace assume particular interesse para o estudo
da presença indígena na história da futura capital do Amazonas,
a então denominada Barra, uma localidade ainda pequena, com igrejas
pobres, inferiores às de Santarém. A população local caracterizava-se
pela mescla de indígenas provenientes de várias regiões e pela
miscigenação entre portugueses e índios. Para Wallace, a sociedade
civilizada local demonstrava ter costumes decadentes, misturando-se
com a população indígena. Exceções eram os estrangeiros, entre
os quais três alemães que cantavam muito bem e que lhe proporcionaram
momentos agradáveis.
(...)

Observações de interesse etnomusicológico no Alto Rio Negro
Outra notícia de natureza musical é a que dá da região do Alto
Rio Negro. Em agosto de 1850, no vilarejo de São Pedro, apreciou
o fato de um jovem negociante brasileiro, que sabia tocar um pouco
de violão, ter executado algumas melodias simples nesse instrumento.
O violão seria praticamente o único instrumento europeu utilizado
nessa parte do país.
De maior relevância etnológica são as observações de Wallace relativas
à região do Uaupés. Entre elas, cumpre salientar a menção que
faz de um batismo nesse rio, uma cerimônia impressionante que
lembrava ritos de invocação de pajés. Wallace penetrou na área
trilhada há 50 anos antes por Humbold em sentido inverso, alcançando
San Carlos, a principal cidade venezuelana do Rio Negro e ponto
extremo da viagem empreendida por aquele cientista. Nessa região
escutou hinos religiosos cantados por jovens na igreja.
Wallace presenciou algumas festas indígenas em Yavita, uma das
grandes aldeias da região, com ca. 200 habitantes. Observou que
os indígenas também aqui consumiam grandes quantidades de xirac, o mesmo caxiri dos brasileiros. Constatou o variado repertório de danças, para
ele todas muito monótonas, apesar de seus curiosos passos e estranhas
contorções. Essas danças tinham sido outrora muito difundidas
entre os indígenas da região; já quase não eram praticadas, a
não ser nessa aldeia. Wallace chegou a escrever ele próprio uma
poesia, decantando a aldeia e seus habitantes. Nela menciona as
vésperas dos sábados, o canto de domingo, comparando a vida comunitária
local com a vida camponesa na Inglaterra. Também menciona as festas,
nas quais homens e mulheres faziam roda e dançavaam quais crianças
noite a dentro. Enquanto cantavam, percutiam os tambores e tocavam
flautas feitas de bambu. Seus cantos, monótonos e estridentes,
soavam ininterruptamente enquanto dançavam, horas a fio.
Esboços de teorias culturais a partir de observações no Rio Negro
Wallace salienta que o leitor não deveria julgar que pretendesse
inverter os reais valores da cultura, julgando que os "primitivos"
fossem superiores aos civilizados. Nem tampouco considerava-se
como sendo um daqueles nostálgicos que queriam que a vida retrocedesse
aos tempos dos ancestrais. O indígena nada saberia da cupidez,
da ganância, das misérias, dos crimes, dos infortúnios, mas também
não gozava dos prazeres que só a cultura poderia proporcionar,
o gozo da contemplação de coisas belas produzidas por artistas,
o encanto da leitura, a satisfação do saber. Ele também tinha
visto no amor ao dinheiro a causa de todos os males; com o passar
do tempo, porém, mudara de idéia.
As observações etnográficas de Wallace relativas às aldeias que
visitou na Venezuela indicam que encontrou indígenas em vários
estágios de contacto com a sociedade cristã envolvente. Assim,
assistiu a uma festa em Tomo, precedida pela preparação de abundante
xirac e na qual os indígenas dançaram trinta horas sem interrupção.
Os participantes da festa usavam roupas civilizadas e adornos
indígenas, misturados de modo singular. Traziam calças limpas
e camisas brancas ou listradas, ao mesmo tempo que cocares de
penas, colares de contas e outros adereços, isso sem falar nas
pinturas faciais. No todo, o conjunto dava uma impressão bizarra.
Para completar, traziam redes sobre os ombros, enroladas como
se fossem enormes écharpes, e marcavam o compasso com batidas
de "uma espécie de cilindro ôco" no chão. Alguns participantes
empunhavam lanças, arcos e varapaus, todos adornados de penas.
Descrição de festas em Marbitanas
Na descrição de Wallace, os indígenas mais conhecidos pelas suas
festas teriam sido os habitantes de Marbitanas. Costumava-se dizer
que passavam a metade de suas vidas em festas e a outra metade
preparando-se para celebrá-las. O pesquisador ficou impressionado
com o consumo de aguardente de cana ou de mandioca durante tais
festas. Numa delas, enquanto permaneceu, constatou que já haviam
bebido o conteúdo de um barril. Em todas as casas onde havia dança,
três ou quatro pessoas ficavam andando pelos aposentos com um
garrafa, distribuindo bebida sem cessar.
O interessante, porém, é que tais festas sempre coincidiam com
a celebração de um dia santificado da Igreja. Antes do dia festivo,
com uma ou duas semanas de antecedência, um grupo de 10 ou 12
moradores saía de canoa pelos arredores para anunciar a realização
da festa, visitando sítios e aldeias indígenas num raio de 50
a 100 milhas. Esse grupo levava consigo a imagem do santo, diversas
bandeiras e alguns instrumentos musicais. O grupo era bem recebido
em cada casa, e os moradores faziam questão de beijar o santo
e dar algum presente para a comemoração, tais como ofertas do
"porco de São João", frangos ao Divino Espírito Santo, etc.
Danças indígenas e comparações com a natureza
Wallace não esconde a sua alegria ao encontrar indígenas que correspondiam
à imagem que tinha dos "verdadeiros habitantes da floresta". Isso
aconteceu ao subir o Uaupés pela primeira vez, quando visitou
uma maloca num canal secundário daquele rio (Açai- Paraná). Em
outra aldeia, - uma casa e duas malocas -, os moradores tinham
ido a uma aldeia próxima onde se realizava uma festa, com danças
e caxirí.
Impressão extraordinária deixou-lhe a festa que observou na maloca
grande em Ananá-Rapecuma, ou "Ponta do Abacaxí". Alguns dançavam
e outros tocavam pífaros e apitos. A festa havia sido encerrada
pela manhã e tanto os chefes como os maiorais já tinham tirado
seus cocares. No entanto, como ainda não acabara o caxiri, rapazes
e moças continuavam dançando. Todos os seus corpos estavam pintados
com motivos geométricos regulares. Quase todas as moças que dançavam
usavam um saiote curto feito de contas.
Os homens monopolizavam os adornos, invertendo o costume dos países
civilizados e imitando a natureza, onde os animais masculinos
são aqueles que apresentam aparência mais bela. O selvagem aspecto
desses indios, o bater dos pés e o chocalhar dos frutos secos,
acompanhando a música e a dança, o zunzum das conversas numa língua
estranha, a música dos pífaros, das flautas grandes e de outros
instumentos feitos de bambu, de osso e de carapaça de tartaruga,
a enorme cabana escura, tudo isso produziu um efeito indescritível
em Wallace, totalmente diverso daquela que se podia obter de uma
demonstração artificial de indígenas. Ficou feliz em poder ter
presenciado uma comemoração indígena "realmente autêntica".
Apresentações de música e dança no Uaupés
Wallace permaneceu nada menos do que uma semana em Jauaretê, a
segunda aldeia mais considerável do Uaupés. Também aqui as festas
se sucediam continuamente, com grande consumo de bebida fermentada
de mandioca. Querendo assistir a danças indígenas, os habitantes
da aldeia prepararam caxirí em sua homenagem e convidaram indígenas
da vizinhanças.
Todo o grupo empenhou-se na realização dos preparativos e os convidados
foram recebidos cerimoniosamente na maloca. As danças foram realizadas
no salão, ou seja, no espaço desocupado entre as duas fileiras
de colunas principais. Os dançarinos, em número de 15 ou 20, eram
todos homens de meia idade. Formavam um semicírculo, cada um apoiando
a mão esquerda no ombro direito do vizinho. Estavam ataviados
com ornamentos plumários. Wallace registrou pormenorizadamente
as vestimentas e os ornatos. Cada um trazia na mão uma lança,
um feixe de flechas ou um maracá pintado.
A dança consistia, na descrição de Wallace, num único passo para
o lado, repetindo-se ininterruptamente, de modo que os dançarinos
iam dando uma volta pelo salão. Os pés que batiam com força no
chão, as maracas e os coquinhos presos às pernas que chocalhavam
sem parar, o canto que parecia similar ao cantochão, de poucas
palavras, repetidas em vozes graves, tudo criava um efeito animado
e marcial. Em determinados momentos, as moças entraram na dança.
Cada uma posicionava-se entre dois homens, abraçando-os pela cintura.
Elas ficavam na roda por uma ou duas voltas, retirando-se todas
a um só tempo. Os homens prosseguiam com a dança e elas ficavam
sentadas nos banquinhos ou no chão.
Dança da serpente
Wallace presenciou e descreveu um dança que deveria tornar-se
quase que um emblema da cultura dos povos indígenas do Amazonas
para os leitores europeus: a dança da serpente. No terreiro da
maloca, ao chegar, dançavam rapazes e meninos, estes sem os ornatos
de gala. Daí a pouco, porém, mudaram de passo e começaram uma
nova dança, cujo nome seria ou poderia ser "dança da serpente".
Eles haviam feito previamente duas enormes cobras com ramos e
folhas atadas com cipós, medindo de 30 a 40 pés de comprimento
e cerca de 1 pé de diâmetro. Os jovens dividiram-se em dois grupos,
de 20 a 15 participantes, e começaram a dançar, carregando a serpente
apoiada nos ombros. A dança prosseguia de tal modo que a cobra
parecia realmente colear, erguendo a cabeça e torcendo o rabo.
Os rapazes iam e vinham, mantendo os dois grupos paralelos, enquanto
se aproximavam cava vez mais da porta principal da maloca. Várias
vezes as cobras chegaram a entrar com a cabeça no recinto, mas
logo depois recuavam. Os que dançavam no salão fizeram uma pausa
e ficaram observando as serpentes, que não cessavam de ameaçar
de entrar na maloca. Aí, subitamente, os dois grupos dispararam
a correr, entrando na maloca. Lá dentro, voltaram ao passo primitivo,
aquele do vai-e-vem, mas sempre avançando mais do que recuavam.
Por fim, quando completaram o semicírculo, os dois grupos se defrontaram.
As serpentes assumiram atitudes de ataque, até que, de repente,
os dois grupos arremeteram-se para a frente e passaram velozmente
um pelo outro. Saíram pelo terreiro, e a dança terminou. Ouvia-se
durante todo o tempo o contínuo murmúrio das conversas e o som
de cerca de 50 flautas grandes e pequenas, continuamente tocadas.
Cada qual executava uma melodia, produzindo uma balbúrdia que,
para Wallace, nada tinha de harmoniosa.
(...)
Observações do Jurupary, da "música do diabo"
Wallace passou também vários dias entre os Ananases ou Abacaxís
da aldeia situada à margem da cachoeira do Caruru, à montante
de de Jauaretê. Foi alí que ouviu pela primeira vez o Jurupary,
isto é, a "música do diabo". Isso aconteceu durante uma festa
na qual se bebia o caxirí. Um pouco antes de escurecer, ouviu-se
um som de "trombones" e "fagotes" que vinha do rio em direção
à aldeia. Pouco tempo depois, surgiram oito índios tocando um
certo instrumento muito parecido com um fagote de grande dimensão.
Wallace observou que era tocado em pares, distinguindo quatro
pares de diferentes tamanhos. Achou bem agradável o som que produziam,
ainda que rude. Os instrumentos, tocados simultâneamente, com
a mesma melodia, simples, deixavam perceber, para Wallace, que
esses índios revelavam um gosto musical mais apurado do que aquele
de todas as demais tribos visitadas pelo pesquisador.
Os instrumentos eram feitos de cascas de árvores enroladas em
espiral, com embocaduras de folhas. Dentro da maloca, à noite,
dois velhos tocaram os dois instrumentos maiores, movendo-os de
maneira curiosa, para cima e para baixo, de um lado para o outro,
acompanhando esses movimentos com contorções corporais análogas.
Por longo tempo tocaram a mesma melodia, acompanhando-se uns aos
outros, de modo "harmonioso e correto". A partir do momento em
que tais instrumentos começaram a soar, todas as mulheres desapareceram,
velhas e jovens. A explicação desse fato residia numa "superstição"
dos índios do Uaupés. As mulheres não podiam nem mesmo ver um
desses instrumentos, sob pena de morte, em geral por envenenamento.
Até pais já teriam executado as suas filhas, maridos as suas esposas.
Por causa dessa regra, Wallace somente pôde adquirir exemplares
desse instrumento sob a condição de que fossem embarcados longe
da aldeia, fora da vista das mulheres.
Estando mais familiarizado com os do Uaupés, Wallace entrou mais
em pormenores a respeito das etnias da região, com descrições
de suas festas e danças. Assim, um dos pontos relevantes de sua
obra é aquele que diz respeito aos instrumentos musicais que formavam
a "orquestra do Jurupary".que, segundo ele, compunha-se de 8 ou
12 instrumentos de sôpro que denomina de "cornetas" ou "trombetas",
feitos de caules delgados de palmeiras, dotadas de orifícios.
Alguns desses instrumentos possuiam embocaduras largas feitas
de argila ou de folhas enroladas, assemelhando-se a embocaduras
de cornetas. Cada par de instrumentos dava uma nota distinta,
produzindo no conjunto um concerto harmonioso e agradável, lembrando
às vezes uma orquestra de clarinetas e fagotes. Por causa do mistério
que rodeava tais instrumentos, eram guardados em igarapé situado
a alguma distância da maloca.
Wallace colecionou vários instrumentos musicais, entre eles um
pequeno tambor, oito trombetas grandes da Jurupary, diversas flautas,
grandes e pequenas, feitas de bambu, flautas feitas de ossos de
veado, apitos de crâneo de veado, instrumentos de percussão de
cágados e tartarugas, etc.
Foi lamentável para a etnologia o fato de Wallace ter perdido
a sua coleção no incêndio do navio em que viajava. Em todo o caso,
a sua viagem representou uma capítulo de extraordinária importância
para a história dos conhecimentos relativos aos índios da Amazônia.
Concepções gerais relativas aos índios e comparações com o arquipélago malaio
Para ele, os índios do vale do Amazonas aparentavam ser superiores
tanto física quanto intelectualmente àqueles do Sul do Brasil
e à maior parte dos demais indígenas sul-americanos. Estariam
muito mais próximos dos indígenas que habitavam as pradarias ocidentais
da América do Sul. Corroborava, assim, a opinião do Príncipe Adalberto
da Prússia, o primeiro viajante que entrou em contacto tanto com
índios do Sul do Brasil como com povos da Amazônia. Além do mais,
haveria uma clara distinção a ser feita entre os indígenas do
interior da Amazônia e aqueles das vizinhanças de centros urbanos.
A cultura civilizada não passaria, em todo o caso, de uma tintura
leve e superficial; o índio civilizado nada mais seria do que
um pobre diabo, abastardado e degenerado.
Um dos fatos mais significativos dos trabalhos de Wallace foi
a similaridade que constatou existir entre alguns de seus costumes
e aqueles que conhecia de Bornéu e Nova Guiné. Entretanto, reconhecia
que seria necessário que se dispusesse de um volume bem mais considerável
de informações antes que se chegasse a conclusões no sentido de
alguma remota conexão entre culturas tão distantes. Seria possível
que tais similaridades representassem coincidências, ocorrências
puramente acidentais, frutos da mesma necessidade atuando sobre
homens submetidos a idênticas condições climatológicas e representantes
de um mesmo estágio de incipiente civilização. Para o etnógrafo,
aqui residiria uma área importante e vasta de estudos, de pesquisas
e especulações.
(...)

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